Giulia Moon começou sua carreira literária como contista. Lançou três coletâneas que a firmaram como um dos nomes mais presentes da literatura vampiresca nacional. Luar de Vampiros, Vampiros no Espelho e A Dama Morcega angariaram fãs e abriram caminho para um convite da Giz Editorial em 2008, quando foi chamada para participar da coletânea Amor Vampiro ao lado de outros nomes importantes do gênero, como o Best-seller André Vianco.

No conto Dragões Tatuados, fortaleceu-se o embrião de Kaori – perfume de vampira, primeiro romance de Giulia Moon, que deve ter deixado muita gente se perguntando se uma contista de mão cheia teria fôlego para uma narrativa longa. Pelo menos era essa a minha curiosidade.

Kaori – Perfume de Vampira se divide em duas narrativas paralelas. Uma se passa no século XVII, em pleno Japão feudal, e conta como Kaori se transformou em uma kyuketsuki, demônio sugador de sangue em japonês, e lidou com o poder ganho ao beber o sangue ancestral de seu mestre. A outra se passa no século XXI, na cidade de São Paulo, e gira em torno dos vampwatchers, funcionários do IBEEF, um instituto de pesquisa que estuda vampiros e que têm como missão observar e catalogar vampiros de longe, sem interferir em seus ataques. O responsável por movimentar a trama é Samuel, vampywatcher ranzinza que quebra as regras e tira um garoto de rua das mãos de um caçador, descobrindo assim uma complexa rede de vampiros estabelecida na cidade.

“Samuel não tinha muitas esperanças de obter um bom avistamento. Numa noite de segunda-feira como esta, era difícil encontrá-los, ao contrário das sextas e sábados, quando dava com vários deles ao mesmo tempo misturados à multidão, escolhendo suas vítimas como itens num cardápio”.

Quem acompanha a literatura vampiresca sabe que vampiros não nasceram ontem. Aqui no Brasil chegam poucas traduções, mas os mercados americano e europeu são repletos de autores que dedicam séries enormes a vampiros dos mais variados tipos. O que talvez seja novidade é ver o vampiro como cerne da atual febre adolescente crepuscular, a primeira na era da sede por novidades imediatas e consumismo frenético.

A superexposição criou uma falsa idéia do esgotamento do terror vampiresco. Alguns autores aproveitam a onda para lançar seus trabalhos, outros bradam “chega de vampiros, vamos inovar”. Mas defender o esgotamento do terror vampiresco seria o mesmo que dizer que o romance policial ou a fantasia medieval não podem mais dar bons frutos. Cabe a cada autor apresentar um trabalho sincero (vampiros picaretas são facilmente identificáveis) e saber se renovar dentro do que gosta de escrever. Superexposição é coisa que passa e logo o público escolhe a nova bola da vez.

Dito isso, o grande mérito de Kaori – perfume de vampira é ser um romance sincero, distante das histórias genéricas que tentam se aproveitar do nicho. Giulia acrescenta à mitologia vampiresca personagens do folclore japonês como os tengus e cria seus próprios, como é o caso dos famélicos. São pequenos detalhes que ajudam a manter o interesse e o ar de novidade ao longo da história. Ao terminar o livro, fiquei com a sensação de que só Giulia Moon poderia tê-lo escrito, por n motivos diferentes. Ponto positivo.

Giulia diz que ficou mais japonesa depois da pesquisa que fez para escrever o livro. O resultado é uma ambientação impecável, em que o leitor se transporta para a época dos samurais. A parte que se passa no século XVII tem tanta força que ofusca a fase contemporânea da trama. A grande responsável é Kaori, uma protagonista enigmática, que nunca deixa saber ao certo o que se passa em sua mente. A construção de Kaori permitiu que Giulia Moon distanciasse a lógica vampira da lógica humana, criando uma aura constante de mistério em torno da jovem. Mesmo quando ela está diante de seu grande amor, o leitor não consegue dizer se o autocontrole será mantido ou se o romance virará um banquete.

“No terreno baldio, os famélicos comiam depressa, farejando o ar e olhando de vez em quando ao redor, pois a qualquer momento alguém poderia surgir para interromper a refeição. Nega já tinha comido e parecia satisfeita, vigiando cada movimento nos arredores”.

Se a parte do Japão é contada numa cadência mais lenta e melancólica, a parte de São Paulo tem o ritmo corrido da cidade, com cenas mais ligeiras não necessariamente pela ação, já que há uso do clima investigativo, mas pela forma como são narradas. Talvez por isso não tenha conseguido a mesma empatia com os personagens dessa parte. Senti falta de saber mais sobre o IBEEF ao longo da trama e não me envolvi com o drama de Samuel, o vampwatcher encrenqueiro. Quando penso nessa fase, quem me vem em mente é a bióloga Beatriz e os famélicos que estuda, esses muito interessantes, e não os vampiros. Com os famélicos acompanhamos uma transformação, desde a novidade até a sua evolução como criatura. Com os vampiros, as transformações se dão efetivamente no passado. Por isso a fase do Japão deixa na memória um punhado de personagens memoráveis em sua individualidade, como o pintor e o samurai, e no coletivo, como os tengus. Nenhum deles termina o livro do jeito que começou.

“A menina sentiu o chão distante, como se seus pés flutuassem no vazio. Olhou em volta, observando cada tronco, cada folha das árvores, cada gota de água que fluía do caniço de bambu sobre o riacho pequenino que compunha o jardim. E tudo isso lhe pareceu vago e indistinto, como se pertencesse a outro mundo”.

A ressalva em comum fica por conta dos vilões. Tanto no século XVII quanto no XXI quem é mau é mau e ponto. Faltou um toque de cinza na paleta, destrinchá-los em camadas. Ainda assim, se precisasse apontar um preferido entre eles, diria que é Madame Missora, mais uma vez do século XVII.

Para encerrar, volto à questão que abriu a resenha. Kaori – perfume de vampira é uma ótima estréia no mundo dos romances, com fôlego de sobra para um próximo volume.

 

Resenha publicada anteriormente no Aguarrás.