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Release:
Um homem que não dorme nunca. Um advogado com um cramulhão na garrafa. Um assassino que atravessa espelhos. Um escritor que não consegue prender sua personagem no papel. Esses são alguns dos frequentadores de Neon Azul, um bar diferente para cada cliente. Escolha o seu lugar, faça o seu pedido. Depois do primeiro drinque, você jamais será o mesmo.
Neon Azul é uma boate onde habitam os seus mais sombrios desejos e tentações. É um lugar diferente, repleto de acontecimentos estranhos, mas que poderia estar na esquina da sua casa ou no caminho entre o trabalho e o metrô. Enquanto acompanha a história do bar e de funcionários e clientes peculiares, descubra que realizar seus desejos pode ter efeitos colaterais imprevisíveis.
Homens de negócio, prostitutas, artistas e boêmios imersos em uma solidão que só quem passeia pela noite já experimentou, um sentimento comum aos que vivem cercados de gente, com um sorriso no rosto e um copo na mão.
Nesse jogo de luzes e sombras que revelam a fantasia e encobrem a realidade, está nas mãos do leitor a decisão de acreditar ou não no que lê e decidir quem conta as verdades e as mentiras ao longo da história.
Assim como o insone gerente do bar, o leitor terá muito o que lembrar quando deitar na cama e fechar os olhos por própria conta e risco.
Trechos:
“A saleta estava cheia de fumaça. O sopro gelado do ar condicionado espalhava uma parte do que era liberado pelo charuto e pelas baforadas. Não consigo me lembrar da imagem Dele. Apenas das roupas. As malditas roupas que eu costumava usar quando queria ser mais do que os outros. O sapato italiano, o chapéu, o terno impecável. Eu, um mendigo, vestido como a sorte permitia, com as roupas mais limpas que eu podia ter. Ele com os cabelos lisos brilhando, eu com o emaranhado rente à testa. Apesar do banho tomado, eu me sentia um verdadeiro lixo”.
“O fato é que não dormia e isso lhe havia rendido uma imensurável quantia de dinheiro. Sua última noite de sono havia sido aos quinze anos e por não saber que seria a última, Armando foi se deitar tarde, lendo um livro de vampiros, e não a aproveitou como poderia, com a mão direita enterrada entre os travesseiros e a esquerda enfiada na cueca listrada. Trinta anos se passaram sem que pregasse os olhos um momento sequer. Nem um cochilo ele conseguia tirar”.
“Me levantei para pegar um documento na gaveta da estante. Em cima dela, havia um boneco de pano dentro de uma garrafa. Era feito de uma linha marrom bem grossa, similar a de sacas de arroz. Possuía olhos de botões verdes, unhas feitas de agulhas de costura e se mantinha de pé, invariavelmente, apesar de sua aparência molenga. Tinha sido um presente de Armando, futuro gerente de um inferninho que eu havia ajudado a manter aberto, livrando-o de um processo. No dia que me entregou o boneco junto com o cheque, disse que era um amuleto de boa sorte diferente e que eu deveria mantê-lo por perto quando estivesse trabalhando. Meu chefe abriu um sorriso de orelha a orelha quando viu o boneco na sala, ainda largado sobre a mesa. Nem pense em levá-lo para casa, disse ele, quero vê-lo sempre que passar por seu escritório”.
“Tal qual Moisés à beira do mar, Murilo abriu caminho até o espelho, encarando o reflexo que o convidava a se aproximar. Apoiou de leve as mãos nas mãos de sua imagem invertida, jogando o peso do corpo sobre elas. Curvou-se com cuidado sobre a pia, puxou o joelho para cima do mármore e atravessou o rosto até o outro lado. Seu prisioneiro continuava lá, amordaçado no canto do banheiro invertido, os cabelos brancos sujos de sangue seco”.
Comentários:
Por Jorge Cruz Jr. - Neon Azul consegue comungar elementos dos contos viscerais de Rubem Fonseca e do extraordinário mundo de Edgar Allan Poe. O livro é a confirmação da evolução de um autor que parece saber exatamente o que leitor de hoje deseja ler. Tanto que, ao final, lamentamos suas menos de duzentas páginas, pois quando a porta do Neon Azul se abre, a imaginação e a qualidade da escrita de Eric Novello parecem ser inesgotáveis.
Elvira Vigna no Aguarrás - Neon não é azul na vida realmente química. É roxo. E em geral passa todo o tempo vibrando dentro de um tubo. Com isso, emite luz. Um tubo de neon é como se fosse, então, uma linha de luz a marcar contornos, desenhar letras. Deveria ressaltar limites, formas. Sim e não. A luz também tem o efeito de impedir a nitidez dos contornos. Não tem bom ou ruim a ser contornado ou ressaltado por este Neon. Você não escolhe entre ser pai de família ou assassino. Dá para ser os dois. Da mesma forma que também dá para fazer um livro de literatura fantástica e realista ao mesmo tempo.
Ana Carolina Silveira no Leitura Escrita - A Literatura é uma coisa só, colocando debaixo de seu guarda-chuva todos os gêneros, sem preconceito por este ou aquele. O Neon tem a lógica dos sonhos, onde os desejos se tornam intensos e estão ao alcance de um toque – entretanto, aqui, há um preço a se pagar pela satisfação da vontade. Os contos são noir e aqui a melancolia é onipresente, bem como a sensação de aniquilação e de fatalidade. Não é um livro sobre escolhas fáceis ou finais felizes e redentores, mas sobre aqueles que já perderam tudo – o orgulho, a saúde, a sanidade.
Antônio Luiz Costa na Carta Capital – Trata-se de uma articulação de contos mais fantásticos que propriamente de fantasia – a maior parte do tempo oscilam em um limbo entre realismo e fantasia, permitindo ambas as interpretações – que se passam em um mesmo cenário, a boate do título e são costurados entre si por citações cruzadas e por temas e personagens recorrentes, principalmente o misterioso Homem de terno branco da capa.
Walter Tierno - O ponto de ligação dos personagens é profundo e os transforma. Ao frequentarem o bar a transformação os aproxima e os faz convergir. Daí, minha comparação com o Doutor Lao. Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar, “As sete faces do Doutor Lao” é um filme rodado na década de 60 e apresenta um velhinho chinês que chega a uma cidade no Oeste norte-americano do final do século XIX com um circo de maravilhas, habitado por sete criaturas. O desenrolar do filme sugere que as sete criaturas são personificações do velho chinês. O mesmo parece acontecer em “Neon Azul”.
Ghad Arddhu no Axis Draco - Neon Azul, de Eric Novello, não é um livro em minha concepção, é um reduto de signos catalisadores de histórias de vida e alguns “e se”. Uma experiência que se assemelha a experimentar uma nova bebida, uma droga lícita que você pode comprar sem preocupações.
Por Jota Marques - Mergulhamos nas páginas e nos deixamos levar pela prosa atraente do autor, costurando os acontecimentos que nem sempre oferecem uma resposta lógica, como os que envolvem Jéssica, deixando-nos em dúvida do que é realidade e do que é sonho. (…) Neon Azul é um daqueles livros que não conseguimos largar até o fim. Um grande lançamento de 2010 pela Editora Draco.
Nínive Leikis no Arena Fantástica - O espírito brasilis, especialmente o carioca, está em toda a parte deste livro, dando a nítida impressão de que, afinal de contas, tudo ali pode acontecer. Nada impediria de, em uma esquina da cidade, aquela que você nunca deu atenção quando estava correndo para o metro ou para o ponto de ônibus, abrigar uma espécie de Neon Azul. Se alguém conhecê-lo, me avise!


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