Foi num curso de tradução que ouvi pela primeira vez alguém explicar na prática o que eu sabia só de instinto: registros de voz em diálogos. Hein? Fácil fácil. Sabe quando você lê um livro e o personagem é tão bem trabalhado que você percebe que é ele falando em determinada frase? Provavelmente o autor criou de um modo discreto um registro de voz para que você possa identificá-lo, um jeitão só dele. O mesmo personagem, assim como nós, falará de maneiras diferentes quando estiver diante de um igual ou diante de um superior, por exemplo, ou numa situação de medo ou de euforia, mas com algo em comum em todas essas situações, algo que pertença a ele acima de qualquer coisa.

E por que isso, Eric? Você criou 150 registros de voz para cada personagem? Não, ainda não enlouqueci. Mas usei essa ferramenta para trabalhar um personagem muito especial do meu livro O Viajante das Sombras: o mago Bismark. Ele é especial porque é da Nicarágua e fala espanhol. O mago Bismark presta consultoria na América Latina, inclusive o Brasil, e eu queria tornar as falas dele bem reais. Para isso, criei alguns registros.

Há situações em que ele fala tudo em espanhol. Usei isso numa cena dentro de uma viatura em que ele fala com agentes subordinados a ele. É um daqueles momentos em que fazem piadinha com o que não se deve e ele descasca a galera, nenhuma palavra em português. Para o leitor não ter um choque, escolhi nas primeiras frases palavras que sejam iguais ou muito parecidas no português.

O outro registro foi do Bismark diante de uma criança, numa situação tensa, uma cena super pesada do livro. Ele se esforça para falar em português, garantir que a criança o entenda. Quando o nervosismo o leva a falar em espanhol, ele faz questão de repetir traduzindo, logo em seguida.

Mais um registro, para fechar os exemplos, é do Bismark largadão, super à vontade conversando com o Ícaro Pagani na mesa do bar. Eu trabalho com tradução e de vez em quando as palavras me faltam num idioma, só vem na cabeça em inglês, às vezes em italiano, uma confusão. Todo tradutor passa por isso, nada grave. Inspirado nisso, o Bismark dá seus tropeços no português, fala palavrões em espanhol. Ficou muito divertido de fazer.

Dá trabalho? Claro! Mas o resultado final vale o investimento.