No se lo digas a nadie foi escrito por Jaime Bayly em 1996, no Peru. Grande parte da trama se passa em Lima, e o autor a retrata como uma cidade que tenta expulsar seus habitantes a todo o momento, um lugar afogado em arcaísmos de tradições religiosas e conflitos sociais. Os jovens vivem viajando, tentando a sorte em outros países, tendo como alvos principais os Estados Unidos (Miami) e a Espanha (Madrid). Os mais velhos preferem viajar para refrescar a cabeça, escapar do peso de Lima, mas sempre retornam, já que no Peru são importantes e no exterior não são ninguém. Bayly decidiu mostrar as famílias ricas do país. Enfiando o dedo em todas as feriadas possíveis, não poupa ninguém de sua avaliação sociológica.
O preconceito em foco na maior parte do livro é o contra gays. O leitor acompanha Joaquín, o protagonista, desde a infância, e participa de todo o processo de descoberta e entendimento de sua sexualidade. O livro começa com Joaquín sendo transferido de colégio. A mãe explica com seu jeito supostamente amável que se ele é o melhor aluno da escola, esse é um sinal de que a escola não é boa o suficiente para ele, por isso o matriculou em uma mais forte. Na verdade, é uma escola onde estudam alunos de classe social mais alta, onde Joaquín pode fazer amizades melhores para os objetivos dela. Teoricamente, os ricos são mais puros de coração, o que bate com os ideais religiosos de tornar Joaquín um cristão exemplar. É uma cena rápida, que traz o conceito principal do livro: o que acontece com alguém tirado à força de sua zona de conforto. Por ser gay, Joaquín viverá várias situações como essa ao longo da vida.
É também nesse começo que Bayly apresenta os personagens principais e define seus traços de caráter. Há Joaquín, manhoso e mimado. Há Maricucha, sua mãe, uma beata intragável dessas que estão sempre ferrando a sua vida para o seu bem. Há o pai, Luis Felipe, um machão convicto que cospe no chão, gosta de porrada, armas e tem mil idéias de como um homem deve mostrar seu valor.
No caminho para a escola, ele aconselha o filho a encher os mais malandros de porrada logo no começo, para que ninguém mexa com ele. Joaquín, que é de paz, não entende o motivo de ter que bater em pessoas que nem sequer conhece, mas promete para o pai que vai seguir os seus conselhos.
Bayly cria uma relação muito forte entre esses três personagens. Maricucha vive lutando pela unidade familiar, colocando-a acima da felicidade do indivíduo, pois desmanchar a família seria pecado. Conforme o drama avança, ela precisa se confrontar com a sexualidade de Joaquín, justo o filho que aos seus olhos seria um santo na terra e se tornaria sacerdote. Às vezes finge que não ouve ou não entende que o filho é gay, mesmo quando dá de frente com ele e seu namorado, às vezes faz o velho discurso de que isso é só uma fase e que enfiando coisas boas na cabeça e encontrando boas companhias, logo Joaquín encontrará uma boa esposa. É uma relação cáustica, que consome os personagens por dentro, danosamente, pois Joaquín não consegue se desvencilhar da mãe e do amor que sente por ela, sendo obrigado a ouvir seus delírios psicanalíticos, e porque Maricucha não desiste de sua tortura cristã. Luis Felipe sabe desde cedo que o filho é gay e também tem com ele uma relação conturbada, obrigando-o a fazer coisas que não faria naturalmente só para provar que é homem. Ele o obriga a caçar, leva-o a um prostíbulo para perder a virgindade, tenta fazer “programas de homem” sem a mãe saber. Luis Felipe considera a baboseira religiosa de Maricucha a grande responsável pela sexualidade de Joaquín, o que o torna automaticamente a cura. De certa maneira ele sabe que não pode mudar as escolhas do filho, e continua no seu processo de conselhos e tarefas pseudomasculinas pelo puro prazer de torturá-lo. Joaquín odeia o pai, mas tenta agradá-lo de todas as maneiras, inclusive quando precisa agir contra seus princípios e ideais. Chega a beirar a penitência por não ser o filho que o pai queria, mas é de fato aquela ponta de esperança de que um dia ele e sua mãe possam aceitá-lo da forma que é. Curiosamente, não conseguem ficar muito tempo brigados e acabam se procurando.
A trama não gira apenas em torno da família. Ao longo dos anos, Joaquín conhece diversas pessoas que servem para o autor dissecar os problemas existentes no Peru. De igual para igual com o preconceito contra gays está o preconceito dos brancos ricos contra os índios, o que leva a uma verdadeira guerra civil. Bayly comenta também do problema com as drogas, onipresente em Lima. Joaquín tem sempre uma história para contar envolvendo um político viciado. Aliás, é difícil ler uma cena que não acabe com Joaquín comprando drogas ou cheirando uma carreira de cocaína atrás da outra. É totalmente drogado que ele tem uma de suas primeiras noites de amor romântica sob um céu de estrelas.
Enquanto disseca os problemas do país, Bayly narra uma história de aceitação, de como aprender a ser feliz e abstrair das pessoas que dizem querer o seu bem e te fazem tanto mal. Depois de passar por poucas e boas como todo tipo de amigo, Joaquín parece mais preparado para encarar a vida, mesmo que numa vitória parcial. Lá pelo final, reencontra os pais em uma situação inusitada e tenta uma última vez resolver o seu dilema: encarar Luis Felipe e Maricucha e se declarar livre.
Ao desenvolver a relação familiar e destrinchar os sentimentos de Joaquín, Bayly alcança seu maior objetivo: tira o leitor de sua zona de conforto. Há pequenas pausas para respiração, momentos de calmaria, mas eles são raros dentro do universo apresentado. O horizonte é sempre negro, por mais que se saiba que o sol está lá. De modo geral, No se lo digas a nadie é uma experiência intensa. Leitura do tipo que incomoda, mas que não se consegue largar. É de 1996 e se passa no Peru, mas é extremamente atual e brasileiro.
