O que há de mais curioso na história de Benjamin Button é entender como ele conseguiu tantas indicações ao Oscar, 13 no total, e já venceu 12 prêmios dos 50 a que concorreu mundo afora. O filme de duas horas e quarenta minutos custou a bagatela de US$150 milhões, distribuídos em efeitos especiais de rejuvenescimento e envelhecimento, viagens pelo mundo e cenários grandiosos, tudo isso com cara de filme modesto, desses que diretor estreante resolve filmar para fortalecer o currículo. O sucesso comercial também foi maior do que eu imaginaria, assim como a campanha de marketing. Nos Estados Unidos, foi lançado no Natal e arrecadou cerca de US$120 milhões, devendo render bem mais com a propaganda contínua em que o Oscar se transforma.

Um bom começo é espiar os trabalhos anteriores dos envolvidos. O roteirista Eric Roth foi responsável pelo confuso Munique (Steven Spielberg), o badalado Ali G (com Will Smith no papel principal), o fiasco O Mensageiro (com Kevin Costner) e Forrest Gump, a cereja do bolo. Para quem não lembra, Forrest Gump levou 6 Oscars e garantiu o estrelato de Tom Hanks. A historinha de celebração americana nunca me convenceu. O importante dessa informação é ver que a combinação “história real”, “ator âncora” e “efeitos especiais” vem daí.

 

Se os filmes de Eric Roth não estão entre meus preferidos, a situação se inverte com o diretor David Fincher. Difícil não lembrar do impacto causado pelo suspense Seven, primeiro trabalho conjunto de Fincher e Brad Pitt. Quatro anos depois ele voltou com Clube da Luta, um filme cultuado por muitos cinéfilos. Dirigiu também o suspense Quarto do Pânico (com Jodie Foster) e o sombrio Zodíaco, sobre um psicopata e a obsessão de um cartunista pelo caso. Os filmes de Fincher têm uma constante: fazem mais sucesso fora dos Estados Unidos. Sua melhor bilheteria é sem dúvida Seven (US$327 milhões), seguido de Quarto do Pânico (US$196 milhões). Bons resultados para suspenses sem o apelo adolescente de super-heróis, por exemplo.

Benjamin poster 1Os protagonistas dispensam comentários. Listar os trabalhos de Brad Pitt e Cate Blanchett ocuparia pelo menos uma página da resenha. Se Brad Pitt não é conhecido pela versatilidade, é uma grata surpresa vê-lo como ator e não como celebridade atuando em Benjamin Button. Agir como um velho com cabeça de criança e depois como um adolescente com cabeça de velho não deve ter sido tarefa das mais fáceis, mas o sucesso é evidente. Pitt apostou na sutileza de olhares e nos gestos contidos de alguém que não aprendeu a se expressar quando deveria. Há também a rouquidão na voz que não sei se é efeito de edição ou se também está entre os méritos do ator. Cate Blanchett faz o caminho inverso, o caminho natural, mas nem por isso menos desafiador. Ela interpreta uma adolescente, adulta, senhora e paciente terminal durante a trama, fazendo o contraponto ao caso de Benjamin. É o símbolo da normalidade, dentro do possível, e extrai o máximo de sua personagem.

Já que falei da trama, vamos finalmente a ela. O curioso caso de Benjamin Button conta a história de um bebê que nasce velho. Logo no parto ele perde a mãe. O pai, chocado com sua aparência e com a morte da esposa, leva-o a um abrigo de idosos e o abandona na porta. A enfermeira do lugar acha o garoto e decide criá-lo. O médico diz que ele tem envelhecimento precoce, que nasceu com artrites, reumatismo, coração fraco e tudo mais, e por isso terá poucos anos de vida. Mas Benjamin é mais do que isso. Ao contrário de todos nós ele rejuvenesce conforme fica mais velho. É um velho garoto, um jovem de bengalas e quanto mais o tempo passa mais bonito e saudável ele fica. Nessa lógica reversa, ao invés de morrer como um velho de pele enrugada e costas curvas, Benjamin está destinado a se transformar em adolescente, depois criança e por fim em bebê.Benjamin poster2

O sonho da juventude aqui não carrega charme. Seguir no rumo inverso é uma constante de desafios para Benjamin. Enquanto as crianças brincam na rua, ele está em uma cadeira de rodas. Um suposto senhor ter como melhor amiga uma menina de quatorze anos também não é bem-visto dentro do asilo. Imagine então ler historinhas escondido embaixo da mesa. Mas é claro que o asilo é um cenário transitório e não demora muito um mundo de possibilidades se abre diante de Benjamin. E é nesse ponto que a magia enfraquece. Benjamin passará por todas as etapas da vida, terá romances passageiros, sexo (antes do primeiro beijo para manter a lógica), o primeiro emprego, fará fortuna, se aproximará e se afastará do verdadeiro amor até poder abraçá-lo de fato quando se julgar preparado. Decidirá trabalhar em um navio para poder viajar pelo mundo e dentro dele participará da guerra. Não fosse o problema cronológico, ele levaria uma vida bastante normal.

Obviamente, os pontos fortes da trama são os encontros de Benjamin e Daisy, personagem de Cate Blanchett. O tal amor inacessível e acessível, dependendo da situação. Os dois seguem em sentidos cronológicos contrários, o que permite matematicamente que haja pelo menos um ponto em comum, a faixa dos cinqüenta anos.

A verdade é que fiquei com os olhos cheios de água. Tanto pelo filme quanto pelos velinhos no cinema. Pensava se viam ali uma história sobre morte, o tempo que nos resta, oportunidades perdidas, arrependimentos e tudo mais que se pode empilhar durante uma vida. Tenho uma boa relação com o tempo. Gosto da idade que tenho, gostarei das demais. Esse é um tipo de drama que não me afeta. Também acho as comparações da velhice com um retorno à infância bem picaretas. Como diz O-kiku, a gueixa de Felice… Felice, a vida é o que é. Mas o fato é que as lágrimas estavam lá. Se a história em si não me comoveu e se de fato não faz a menor diferença que Benjamin tenha nascido velho, dado que enfrentará os dilemas na ordem tradicional (fora o tal sexo antes do beijo), talvez a emoção venha simplesmente do cinema como arte. Do todo que é maior do que as partes. E isso não se vê todos os dias por aí.

É bem capaz que você saia do cinema pensando que essa fábula sobre o tempo carrega uma bela mensagem, mas não consiga em nenhum momento decidir qual é. Se ficar assim, não se assuste. Pelo visto foi essa a intenção.

Como última crítica, para não dizerem que estou bonzinho hoje, O curioso caso de Benjamin Button tem um sério problema de identidade narrativa. Sua estrutura muda de uma parte para outra quebrando a unidade do filme. Há blocos de construção tradicional e linear e outros de comentários em primeira pessoa (é um diário). O melhor exemplo, por ser o mais deslocado de todos, é a parte em que Benjamin narra o acidente de uma amiga, repassando de modo entrecortado todos os menores detalhes do seu dia e do homem que a atropela. Praticamente um roteiro dentro do roteiro, no melhor (ou pior) estilo Magnólia.