Alguns nos marcam pelos grandes atos, outros pelas pequenas atitudes. A lembrança mais forte que tenho de meu primo está nos meus 6 anos de idade e em seus 9. Na festa de Natal na casa de nossa falecida avó, adentrando a conversa falsamente animada da família (o vinho faz tudo parecer real), ele veio chamar a mãe para testemunhar seu cocô cheiroso. Foi assim que defini meu primo ao longo da vida, como alguém que não se desfez da ilusão soberana. Por mais que fedesse em uma corrida, suasse pegando sol ou rasgasse o pé nos cacos de vidro como todo homem, achava-se o loiro platinado com tons áureos de quem vale mais do que a vida.

Antes que nos mudássemos para a cidade, ainda perdidos no quintal das casas que ficavam lado a lado, meu primo conheceu e namorou uma morena de olhos verdes cujo nome não me recordo mais. Apesar de morena e dos olhos verdes, o que mais chamava atenção era a simpatia. Todos achavam que tínhamos um caso, eu já nos 17 anos e meu primo nos 20. Ele nunca demonstrou ciúmes da namorada, que passava mais tempo comigo do que com ele, mas sei que seus pais assim como os meus faziam comentários indiscretos quando estavam a sós. De certo que nunca beijei a morena mantínhamos um pacto doloroso, em que eu me transformava em um Farinelli com a voz doce e o sexo estéril e meu primo naquele que completava o serviço, o adônis fecundador. Não só na teoria, mas também no corpo me doía saber que acordávamos no mesmo horário, tomávamos juntos o café da manhã, ríamos das mesmas piadas, gostávamos das mesmas músicas – esse sem dúvida o maior elo -, mas que passado esse tempo de intimidade, estendido pelo caminho de barro até a praia, quando nossos pés tocavam a praia ainda fresca da manhã, um novo elo se formava. Nossa cumplicidade sem arestas fazia-se triangular, de uma forma cáustica que me corroía os órgãos. Geralmente ficávamos ainda 20 minutos ou mais sentados na areia, esperando que meu primo saísse da água com a prancha para vir nos falar. Não era dos que acordava cedo, fazia esse sacrifício pelo mar. Ele tinha certo prazer nesse teatro, não sabia o que me causava, como eu não sabia o que causaria aos dois, mas gostava de ser visto como um deus surgindo das águas para fazer revelações aos seus seguidores. Quando ela o beijava, os dois de pé, meus olhos miravam grãos mais escuros, diferenciados naquele mar de clareza. Pequenas moscas, vespas, animais sorrateiros ganhavam a minha atenção. Era sempre assim, meu primo com tempo suficiente para curtir a própria vida, pois eu cuidava da namorada, e quando decidia retornar tinha o troféu seguro, já que eu ainda estava lá, inofensivo castrato.

Numa noite de fogueira, com meu avô colhendo as batatas que plantava em nosso quintal e assando-as em buracos cavados na terra, vi pela primeira vez aqueles olhos verdes brilharem para mim. Foi a chama, foi a chama, meus demônios disseram depois. Estávamos um de frente para o outro, o que é uma enorme distância se labaredas nos separam. Meu primo alisou seu braço de pêlos descoloridos e buscou sua mão, uma espécie de beijo inerte, representado pelo entrelaçar de dedos. Seus olhos buscaram o meu sorriso de desgosto. Havia uma grande afeição entre eu e meu primo, a afeição que se pode ter por alguém além de seus horizontes, que enxerga o mundo de cima das nuvens e debaixo das chamas. Ele jamais me machucaria, pois não me achava relevante para isso. E apesar dessa lógica adolescente, eu também o respeitava, e me valia saber que ela era minha quando ele não estava lá.  (tem mais aqui embaixo ó…)

 

Naquela noite que não foi de festa e não rendeu mais do que o costume, todos entregues ao sono, ouvi o pio de uma coruja e saí do quarto para vê-la. Meu primo estava lá, sentado no banco do quintal, próximo ao fogo apagado, vendo a coruja e seu filhote parados na cajazeira. Sentei-me ao seu lado descobrindo que a força de nosso elo estava na distância que cultivaríamos até os últimos dias. Éramos desiguais. Limpei antes a madeira do banco e fiquei olhando a coruja. Meu primo comentou do pio e que a coruja havia capturado uma barata cascuda na terra, em um vôo rasante e certeiro que até o assustou. Lembrou de um dia, quando nós dois ainda muito pequenos saímos pelo quintal procurando coisas estranhas. Ele achou primeiro, uma bola de palha com interior gelatinoso. Tínhamos certeza que ali havia o mais monstruosos dos insetos. Sem pensar duas vezes, o herói grego fugido das tragédias catou um pedaço de pau e acertou em cheio no que descobrimos ser um ninho. Quando abriu, dos três filhotes um estava morto. Nunca saberei se foi aquele golpe desferido por ele que matou o pássaro nem se chegamos a aleijar os outros dois. O que importa é que sinto até hoje como se eu os tivesse matado com meus próprios punhos, indefeso contra indefeso. Colocamos o ninho no mesmo galho. A mãe não demorou muito para achá-lo e tomou a casa com seu pio de tristeza, mudando ninho e filhotes de lugar, inclusive o que havia morrido. Na hora não entendi por que meu primo relembrava a história e meus sentimentos confessos. Foi depois de um longo silêncio que a luz do raciocínio inundou o meu rosto. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele se levantou e chutando a terra, disse que talvez não se importasse, mas que se isso acontecesse eu estaria morto. Dito isso, foi dormir. Eu fiquei lá, procurando a coruja que já havia ido embora, torcendo para que voltasse e apagasse aquele momento. Eu só queria ouvir o pio e nada mais.

Um dia meu primo viajou para uma praia próxima. Acordou cinco da manhã, do sol nem sinal, e pegou o ônibus sacolejante da cidade com os amigos. Eu e ela fomos para a lagoa de águas negras que atraía doentes da região pela fama de medicinal. Ficamos de pernas esticadas, calados, sem nada dizer. Mesmo com meu primo longe, a combinação eu, ela, água e areia evocava a sua onipresença.

Fugi. Mergulhei no mar em frente à lagoa. Lá no mar a água era fria, era o que meus agudos precisavam para não revelar a gravidade. Ela se levantou depois de alguns minutos, andou pela beira me vendo sumir na espuma e reaparecer na água verde. Molhou apenas os pés e me chamou de volta. Nadamos na lagoa, ela, de água doce, parecia fervente pelo choque das temperaturas. Ambos queriam dizer, mas não sabíamos o quê.

Não era um silêncio estratégico. Apenas sincero. Aquele silêncio que se sobrepõe aos fatos.
Atravessamos a lagoa e sentamos em uma duna que dava para o nada. Cheguei a pegar algumas flores pequenas de plantas rasteiras, mas desisti de levar. Não voltamos nadando, demos uma volta maior do que nossas forças, chegando exaustos para o almoço, debaixo de olhares desconfortantes.

Quando meu primo chegou eu estava dormindo. Acordei e fui para a piscina, onde fiquei até o anoitecer. Antes disso, bem antes, vi os dois entrarem pelos portões de madeira, largarem os chinelos ainda na grama e sumirem na casa sem falar nada. Ela se limitou a me olhar, estava suja de areia e tinha a mesma flor da lagoa presa em seu cabelo. Naquele instante soube que nosso pacto havia sido quebrado. Nunca mais atravessei o muro daquela casa. Nunca mais fui cúmplice ou confidente da ilusão. Ele havia vencido. Ela era somente dele e para mim nenhuma parte.

Não demorou muito para que os dois terminassem o relacionamento. Sendo donos de seus rumos não puderam continuar. Fiquei sabendo mais tarde, já morando longe daquelas casas antigas, que voltaram a namorar, mas não deu certo. Cheguei a vê-la andar na rua grávida de outro, sorridente, em um local de comércio, feliz como só. Ia casar. Eu de dentro do ônibus pensei em sair, mas não quis. Não era o medo, era só a vida que sempre vai em frente mesmo quando você aperta o freio. Assim como ela, meu primo teve muitas outras, nenhuma próxima o suficiente de mim, assim como ele também não estava mais.

Morreu três anos depois de conquistar um bom emprego, em um acidente de carro causado por embriaguez. Apesar do cenário de morte que fui obrigado a testemunhar para reconhecer o corpo diante da ausência de nossos pais, só conseguia sentir um cheiro doce no ar, que logo se tornou ocre e azedo.

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Esse é um texto antigo que curto bastante. Um dos poucos que escrevi assim de cara, olhando para a tela e ponto. Se passa em Costazul, onde tive casa de praia por muitos anos, e só deixei de ir por incompatibilidade de interesses. De certa maneira, é um parente de Histórias da noite carioca, só que as memórias não são manipuladas para o humor e o absurdo, mas para o drama, para as tragédias. Mesmo processo, resultado inverso. Taí uma boa experimentação para você que escreve. Ah! Nenhum primo foi danificado durante a escrita desse conto.