O outro foi publicado na cola do sucesso de O Leitor, livro de Berhnard Schlink adaptado para os cinemas com Kate Winslet oscarizada no papel principal. Em um texto curtinho que a diagramação faz render 95 páginas, Schlink conta em O outro a história de um homem que perdeu a esposa e precisa aprender a lidar com o vazio que ela deixou. Foi uma boa coincidência pegá-lo logo depois de Enquanto ele estava morto, de Estevão Ribeiro, já que os dois partem do mesmo ponto e seguem caminhos completamente diferentes. Ao tratar do sumiço de um irmão, Estevão repassa a própria vida a limpo. Já Schlink não está muito interessado na revisão de valores de seu protagonista, mas no modo pouco convencional, quase impessoal, que ele arruma para lidar com acontecimentos.


“Envergonhado, percebeu que tinha menos lembranças ainda de seu casamento e de sua família no ano de sua aposentadoria temporária. Sentira-se injustiçado, magoado, lambera suas feridas e esperara que o mundo, o Estado (…) vissem a injustiça cometida contra ele. (…) Lembrou-se de sua luta contra o barulho das crianças e de seus amigos. Aquela alegria ruidosa, para ele, era pouco-caso com a sua necessidade de tranquilidade”.

O outroEm um primeiro instante, Bengt tenta ocupar o espaço deixado pela esposa com pequenos afazeres tais como arrumar a casa e sair para caminhar. No entanto, a rotina da solidão vai se transformando em insatisfação auto-imposta, obrigando-o a inventar metas para seus prazeres. O passeio no parque vira uma caminhada até a árvore tal antes de voltar para casa.
Lisa, a mulher de Bengt, morreu de câncer. Cuidar dela era a sua rotina, sua certeza. Ele sabia que a qualquer momento ela estaria no quarto, deitada na cama. Agora, sem um olho no futuro, só resta o conforto do passado. E é aí que chega uma carta. A princípio ele pensa que é de algum amigo que não foi avisado da morte da esposa, mas não demora para Bengt descobrir que a carta é de um antigo amante de Lisa. Schlink foge do velho esquema de certezas que desmoronam de repente e trata o assunto de modo inusitado. Seu protagonista vê na carta um jeito de ocupar a vida e, como quem não quer nada, começa a responder no lugar da esposa, tentando arrancar informações sobre o caso. Ele não sabe o que é pior: pensar em Lisa sendo outra com o amante ou sendo ela mesma. Bengt vê o amante como alguém que veio tirar o pouco que lhe resta e é preciso derrotá-lo no presente para que seja derrotado também no passado, de modo a promover o retorno do conforto.
Depois de algumas trocas de correspondência, a tentação aumenta e fica claro que o único jeito de levar o plano adiante é se encontrar cara a cara com o oponente, momento em que o autor não resiste e explicita a disputa como um jogo de xadrez, partindo para um xeque-mate coerente com sua fuga de clichês e comodismo de Bengt.

“Quando se lembrava da intimidade entre ambos, sua culpa emudecia, dando lugar a um mal-estar. Teria ele se iludido? Teriam mesmo sido tão íntimos assim? O que faltara? A vida a dois não era boa? Afinal, haviam dormido juntos até ela cair gravemente doente, haviam conversado até ela morrer”.

O Outro é quase um conto. História para se ler em menos de uma hora. A adaptação para os cinemas traz Liam Neeson, Laura Linney e Antônio Banderas, um trio tão inusitado quanto.