Como quem precisa de ibope é novela das oito, chegou a hora de encerrar a série sobre coletâneas pagas aqui no site. Você pode refrescar a memória relendo a parte 1 e a parte 2 antes de embarcar na viagem final. Os posts foram bem visitados, e os comentários dos posts tiveram um número surpreendente de visitas. Tinha mais gente interessada na opinião dos outros sobre o assunto do que no assunto em si. Sempre lembrando, o objetivo da série era pensar o que leva alguém a pagar para trabalhar, ou no caso, o que leva um autor a pagar para publicar. Num tempo em que editores falam coisas como “já está publicando e ainda quer receber por isso?” com naturalidade, é importante estar atento e saber direitinho onde está se enfiando antes de assinar o cheque e o contrato. Você, autor, pode estar pensando agora: ué, mas o dinheiro não é meu? Eu gasto onde bem entender. Você tem toda razão. O mesmo vale para cocaína e drogas em geral, ninguém compra obrigado. Só que isso não me impede de tentar informá-lo e mudar sua decisão.
Fiquei devendo no encerramento falar sobre o público. Em coletâneas pagas, considero o público como a quarta ilusão. Uma das grandes mentiras é dizer que um livro com 50 autores tem mais chances de atrair leitores, porque o leitor pode gostar de um dos autores presentes. Em primeiro lugar, o público não é burro. Se o autor não sabe onde está investindo o seu dinheiro, o leitor sabe muito bem. Além disso, infelizmente, no Brasil, são raros os autores com essa força de atrair leitores simplesmente pelo nome, ainda mais para projetos paralelos. Conto nos dedos. E se ele tiver que escolher entre um conto de duas páginas e um romance, ele irá optar pelo romance do autor que acompanha.
Outro fator importante a se pensar é: como você pretende chegar ao seu público para dar a ele o direito de escolher comprar ou não o seu livro? A palavra mágica é distribuição. Tem editora que apresenta uma lista enorme de pontos de venda para o autor, mas o livro nunca está presente lá. A melhor maneira de saber se a editora que está te cobrando caro pretende mesmo distribuir o livro é anotar alguns dos títulos dela e fazer pesquisa de campo. Passe nas livrarias, peça para os seus amigos, veja se a distribuição é real ou se é mais uma enrolação da lista infinita. Distribuição é um gargalo difícil até para editora séria, imagine para essas que tratam a feitura de um livro como a produção de um tijolo.
Finalizando a questão, volto à Internet. Um site ou blog bem organizado e com material de qualidade vale mais do que qualquer coletânea trash para se apresentar ao seu público. Não subestime o poder de divulgação de blogs e redes sociais.
Como prometido, queria falar da minha experiência com publicação paga. Um dos pontos que levantaram nos comentários foi a qualidade da coletânea Paradigmas. Quando o Richard, editor, me mandou o e-mail falando do projeto, ele deixou claro que era um projeto pessoal, então não considero foco dessa série de posts. Apostei tanto na idéia que pedi o dobro de livros. Mas, supondo que fosse uma coletânea paga tradicional, digo meus motivos para participar:
(1) não custou meu rim,
(2) eu sabia que estaria em boa companhia: só tem amigo e fera na lista de autores,
(3) tinha comentado minha idéia para um romance em fóruns e achei por bem registrá-la na forma de conto, (4) aproveitando para apresentá-la para esses amigos que citei ali no item 2.
Simples assim, decisão pensada, não me arrependo.
O mesmo não posso dizer de Dante, o guardião da morte. Na época em que publiquei, não vi outra alternativa. Tinha esgotado as opções em editoras convencionais e achei que aquela era a única chance. Veja só que ironia, uma semana depois de assinar o cheque, recebi um e-mail de uma editora convencional aceitando publicar meu outro original, o Histórias da Noite Carioca. Se eu tivesse esperando mais um pouquinho, não tinha torrado o dinheiro. Falando nele…
… uma tática comum é a editora dizer que o autor irá colaborar comprando parte da tiragem. E é verdade, o autor leva para casa um monte de livros na esperança de vendê-los para recuperar o dinheiro. Aqui, valem dois comentários (1) o que você paga por um X de livros geralmente está pagando a tiragem inteira. Na época em que a editora me contatou, consultei pessoas que lidavam com gráfica e descobri que o que eu ia pagar por 500 livros cobria com folga a tiragem de 1500 que, teoricamente, foi comercializada pela editora. Para economizar mais um pouco, a editora fez a capa sem orelhas. (2) Eu não sou vendedor de Bíblia, não sou vendedor da Avon. Não saí batendo de porta em porta para esgotar os 500 livros que tinha comigo. Vendi uma parte, outra usei como cartão de visitas. O restante ainda está aqui no meu armário, quase 6 anos depois. Se tivesse recorrido a uma gráfica e feito uma tiragem menor, 200 exemplares, por minha conta, o livro teria ficado melhor, a capa mais bonita, o resultado teria sido o mesmo, e a grana não tinha feito falta. Infelizmente, mesmo sabendo disso, insisti no erro. E por quê? Pela distribuição.
O livro foi distribuído. Em uma semana estava lá, na outra não estava. A editora que cobra não precisa trabalhar o livro do autor. Fora isso, o livro custava muito caro. Inexplicavelmente. Ficava ao lado do livro de autores mais famosos que tinham um preço muito menor e um acabamento muito melhor. Se eu fosse o leitor-comprador (lembra que ele não é burro?), eu compraria o livro do lado e não o meu. Mas na época blogs não tinham força, o que dirá existir twitter, orkut, e-book e as infinitas redes sociais. Hoje, de jeito nenhum tomaria essa decisão. Foi um dinheiro que por muito tempo me fez falta.
Assim, quero encerrar com o que considero a mensagem geral dessa série de posts:
Quando você paga, que isso fique claro, você está investindo na editora. Você não está investindo em você ou no seu futuro como autor. Isso é tolice. Muito menos a editora está investindo em você. Se um editor que cobra falar isso para você, por favor, ria na cara dele, faça isso por mim.