Tenho uma amiga que já foi restauradora de livros e que estremece quando digo que faço orelhas nas páginas durante a leitura. Explico que é o único jeito de me lembrar das passagens que gostaria de citar quando escrevo a resenha. Ela me fala de um marcador que parece um chapéu que cabe direitinho na orelha do livro e que um dia fará vários para mim, mas enquanto esse dia não chega, e talvez depois que ele passe, me vejo dobrando quase por compulsão as pontas das páginas e quem sofre dessa vez é o livro da Carol Bensimon, que desfila em três noveletas um apanhado de boas frases, dessas que cabem muito bem em uma resenha como a minha.
O que primeiro me chamou atenção foi a idade da Carol. Ela nasceu em 1982 e eu ando com mania de achar todo mundo da década de 80 tão novinho e um prodígio quando faz um trabalho primoroso. Aí percebo que a diferença de idade nem é tanta assim, tenho quatro anos a mais, e deixo outros fatores de lado para me concentrar só no texto que é um excelente primeiro tiro na literatura.
“O homem andava de calça social e camisa clara, mas de algum modo essa não sujava do pó nem molhava do suor. E tudo o que ele fazia era mesmo andar. De um buraco para o outro, de um barulho para o outro, andar e olhar para cima, sobre os homens, sobre o que ainda não havia. Se o gordo mandava no grito, esse mandava no silêncio”.
Falando em orelhas, a do livro que não fui eu que dobrei diz que Carol Bensimon é de Porto Alegre, já publicou contos no Zero Hora e nas revistas Ficções e Bravo! Seu próximo romance, Sinuca embaixo d’água, ganhou a Bolsa Funarte de Estímulo à Criação Literária e deve sair em 2009.
Pó de Parede, o de agora, não é bem um romance. Como disse, reúne três histórias diferentes na temática mas similares na estrutura. Seja lá o que for que se aprenda em mestrado de escrita criativa ou doutorado de literatura comparada, parece que a Carol aprendeu bem. O capricho com a estrutura das frases salta aos olhos. Às vezes salta demais, é verdade, mas se deixarmos de lado aquele papo da busca do escritor pela frase perfeita, o que resta são histórias muito bem escritas, dessas que dá gosto de ler e reler.
A que abre o livro se chama A Caixa. Comecei resistente porque remete à infância e é uma torcida de nariz automática a que tenho. Mas besteira minha. A leitura é prazerosa na medida. A Carol não tem uma narrativa simplória, ela monta as frases como um quebra-cabeça (e é contra imortalizá-los como quadros) e deixa exposto o suficiente para que se entenda com todas as letras o que ela quer dizer.
“Voltei para dentro do hotel, e cada parte tinha um nome de flor, que era para as pessoas melhor se localizarem e também para que o hotel cobrasse caro delas, porque uma ala dos jasmins valia muito mais do que um corredor sem nome”
A Caixa é um conto de remembrança. Narrado basicamente do ponto de vista de Alice ele vai e vem no tempo até que se monte não uma história, mas um sentimento geral. A maior parte vem da infância, de como Alice se sentia excluída entre os amigos, da visão que tinha dos pais meio diferentões e da casa moderna feita por um arquiteto visionário, essa sim completamente diferente. É nessa suposta exclusão que se formam as relações de amizade com Tomás, outro excluído, e com Laura, a mais improvável de escolhê-los como companhia. O legal é ser construído em cima de impressões, o que realmente dá o gosto de memórias, ao mesmo tempo borradas e coloridas. Algo que está ali, mas não está é. Quem não significa nada, mas tem toda a importância do mundo. Num desses vai e vens a novela chega ao presente, só para se fechar simbolicamente como passado, porque é lá atrás que está toda a diversão.
Assim, fui eu para Falta Céu, a segunda novela, entusiasmado e ressabiado pelo mesmo motivo. Como a Carol tem uma voz muito forte, o risco de deixar os personagens em segundo plano é grande. É uma questão de escolha.
A história muda completamente de cenário. O leitor vai para uma cidade pequena encravada no meio de duas grandes. Lá a vida é daquelas de que qualquer acontecimento vira história e quando a história acaba as pessoas reinventam para fingir que tem novidade. Carol Bensimon consegue passar muito bem esse clima, que ganha um algo mais quando surge um forasteiro e a noção de uma grande obra, seja lá o que ela for. Tem o gosto de acontecimento passo a passo, que vai se instaurando na velocidade de cimento e tijolo, mas que quando muda o entorno parece que veio de repente. Quem já viveu nessas meio-cidades sabe a sensação que é e me impressionou sentir isso vívido na literatura.
Falta Céu é um texto rico em personagens, mas a autora tem um alter ego definido. E esse alter ego passeia por fofoca de vizinho, amor de verão e outros quadros que compõem a história mais do que amarrá-la, propondo um fechamento psicológico que cabe direitinho na proposta.
“Havia um negro genial que tocava jazz no piano bar. Tocava como um doido e tocava para si, como os músicos de verdade tocam para si e, portanto, não me despertava aquela piedade de quando vemos um tecladista na praça de alimentação de um shopping. Era um músico, e não um quebrador de silêncio (…)”.
A última noveleta se chama Capitão Capivara. Curiosamente, quando Carol Bensimon se desdobra em um escritor e uma aspirante a escritora é que os personagens mais ganham vida e conseguem se impor diante da sua voz narrativa. Assim sendo, Capitão Capivara traz um prazer diferente. Permanecem o esmero com a estrutura e a construção cuidadosa para que a frase realmente possua valor agregado, mas a novelinha ganha uma graça extra na história pessoal de cada personagem. E a vivência é mais ou menos essa: há um escritor que foi pago pelo dono de um grande hotel para escrever um romance lá, usando o hotel como cenário. Só que o escritor está passando por uma crise pessoal que complicará um pouco as coisas. Há a aspirante a escritora que resolveu concorrer a uma vaga de babá no hotel. Ela trabalhará cuidando dos filhos dos hóspedes. Único porém: vestida de Capitão Capivara, uma daquelas fantasias grandes, quentes e abafadas de pelúcia que sufocam a própria voz.
Dessa vez, as histórias se cruzam com humor e se fecham narrativamente, com uma última frase digna de tudo que a antecedeu.
