Portal StalkerNão é de hoje que vejo ecos de Alice nos quatro cantos das artes, foi assim desde sempre. Muito se fala de Alice pelos delírios lisérgicos, pela garota que diminui e aumenta de tamanho, que pede conselhos a uma Lagarta amarradona no narguilé, que fala com um gato que pisca. É um jogo de percepções, é a explicitação narrativa da inconstância da realidade, é um monte de palavras bonitinhas que nos fazem esquecer o principal sobre Alice no País das Maravilhas – ele foi um marco na literatura infantil por dispensar a moral. Nada de órfão que perdeu a avó católica, nada de meninos que congelam os pés na neve por não terem o que calçar, nada de garotas que se perdem na floresta e são comidas por um lobisomem que curte coroas. Lewis Carroll queria, acima de tudo, contar uma boa história, e há certa ironia que seja um livro nonsense a nos lembrar disso, do valor da boa história.

Sem entrar no mérito dos livros que sobrevivem da pregação de valores, eu me concentro aqui na ficção-científica brasileira, na parcela que acompanho hoje. Se não há ninguém que, amém, pregue valores cristãos em cada confronto alienígena, há outra moral sorrateira e rastejante que se impõe como quem não quer nada. A moral do “veja só como escrevo bem”, “meu livro encalhou menos do que o seu”, “quem, cof cof, você pensa que é”. É a moral do cara que não agüenta ser sapinho no brejão e decide ser o sapão do brejinho, sábias palavras de Glauco Mattoso que cito sempre. Talvez pela ficção-científica ainda estar vencendo as barreiras do nicho, e não duvido de seu grande potencial de vendas – cegas são as editoras, às vezes me pergunto se os autores não conversam entre si ao invés de se comunicarem diretamente com o público.

Insisto nisso porque a ficção-científica é só uma roupa. É um jeans com camiseta como outro qualquer. Um autor pode vestir seu drama como bem entender. Alguns preferem vesti-lo com magia, outros com andróides perturbados. A literatura dita mainstream, que chamo de literatura do cotidiano para ver se um dia o termo cola, pode até fingir que é um corpo nu, mas também tem lá suas vestimentas e maquiagens. Ficam na porta ao lado, é verdade, mas com um armário cheio do mesmo jeito. Sai a nave espacial e entra o pó de barro, o sofrimento do imigrante. Sai a arma de prótons e entra a família de classe média cheia de podres. Sai o dragão tirânico e entra a favela, a periferia, o marginalizado, o cara que trabalha consertando os canos dos esgotos. E nisso, sinto muito, não há nenhuma nudez. Não existe literatura nua. Não importa a fantasia que se escolha, o que conta no final, veja só, é ter por baixo uma boa história.

Mas o que isso tem a ver com a Portal Stalker? Muita coisa. E com essa resenha também. Vamos num passo de cada vez.

Mente por trás do projeto Portal, Nelson de Oliveira é um cara bastante presente na literatura brasileira. Está sempre escrevendo alguma coisa, organizando coletâneas, dando palestras aqui e ali. Assim, por conhecer muitos autores e agitadores é capaz de fazer pontes sobre o muro imaginário que separa os gêneros. Digo isso porque é dessa forma que vejo o projeto Portal, uma revista-livro que abre as portas do armário e mostra para as roupas de um lado as que ficam guardadas no outro. Que joga o batom no chão e diz “não me venha dizer que não usa maquiagem”.

Mas que metáfora bisonha foi essa, Eric? Bem, eu comecei a resenha falando de um livro de nonsense, o que mais você esperava?
Dito isso, escolhi comentar da Stalker os contos que me passaram essa sensação do ‘contar histórias’, do autor que se diverte junto com o leitor. Nada contra o experimentalismo ou as abordagens líricas. Acho que temos mesmo que reinventar a roda ao máximo, acrescentar e subtrair ingredientes na poção para testar seus sabores. Mas hoje, não garanto amanhã, o que busco como leitor é um autor que tenha compromisso de bardo.
Novo protótipo. Geralmente o que me atrai nos contos do Roberto Souza Causo são os artifícios que ele usa para fazer a imersão na ficção-científica. Por pura curiosidade, tenho cada vez prestado mais atenção em como os autores se descolam da realidade e o Causo brinca bastante com isso. O conto Novo protótipo se passa no bairro da Liberdade. Começa com “Bairro da Liberdade. Séculos atrás…”, o que já quebra a idéia de tempo, e narra então episódios futuros, jogando a história para um futuro posterior ao que ainda desconhecemos.

O desconhecido também aparece nas palavras criadas. Um passeio na rua nos oferece centenas de imagens que já nos habituamos. Você sabe o que é um shopping, o que é um cinema, sabe o que é carro, metrô. Um jeito de quebrar essa conexão e utilizar palavras novas (ou menos comuns) como se fossem elementos habituais. Então há dutos fibróticos, metrômaglev, pirâmides arcológicas, holodisplay, ultrepoxi e por aí vai. Com isso, mesmo em poucas páginas, o Causo consegue criar uma mitologia que dê base ao texto, cumprindo parte da missão da literatura fantástica.

A história é simples: Bella é uma assassina que, após cumprir sua missão, tentará fugir de seus contratantes. Detalhes podem funcionar como spoiler, então não os darei. Mas vale dizer que a ambientação é um dos grandes atrativos. Senti certa dificuldade de me conectar com o drama de Bella, mas também é uma protagonista interessante por tudo que tem a oferecer. Viraria fácil um episódio do Animax.

“Empurro a bicicleta junto ao meio-fio. Milhares de paulistanos se aglomeravam nas calçadas. Uma procissão de carros arrastava-se pela Avenida da Liberdade. Era véspera do Hanamatsuri e havia um modesto jubilo budista no ar”.

Luiz Bras, por si só uma ficção, participa com o conto Singularidade Nua. Foi um dos que mais me entreteve. O autor pinga as informações em blocos de texto, mantendo o mistério até o fim, apesar do mistério não ser a base para a história. O primeiro bloco passa a idéia de que algo deu errado, sabe-se lá onde, e que o protagonista, o doutor, irá lá para entender e não necessariamente consertar.

Os blocos seguintes revelam que esse lá são três naves rumo ao desconhecido, cada uma com um irmão. O doutor precisa convencê-los a ativar a autodestruição das naves, e usa com cada um deles um jogo distinto. O deslocamento da realidade se dá pelo modo como o doutor atravessa as distâncias para chegar às naves e com o ambiente onírico que se apresenta dentro delas. Tomadas as devidas proporções, me lembrou da ambiência do primeiro conto de Ray Bradbury em O Homem Ilustrado, em que as crianças arrumam um jeitinho nada convencional de usar seu quarto holográfico para vencer uma disputa com os pais.
Há também uma beleza visual, uma poesia que não afoga a narrativa. Um cuidado com as palavras que me agrada bastante no uso de sombras, cubos de gás verdes e bolhas de sabão.

“Pegou o objeto da mão do visitante. Era um cubo pequeno e pesado, feito de vapor verde. O gás estava todo contido no interior, mas não havia seis paredes sólidas impedindo que vazasse. Huno percebeu isso ao enfiar o dedo em uma das faces, por mera curiosidade. O dedo atravessou sem resistência alguma”.

Ivan Hegenberg participa com Esquizóide, conto excelente que anuncia nas primeiras linhas sua proposta “Já não sei dizer. Se sou real. Ou um personagem de ficção”. É um conto que brinca com a estrutura narrativa sem derrubar o leitor no meio da viagem. Um conto que fala do turbilhão de informações que nos atropela, de como nossa relação com a memória se reflete na formação de identidade.

O narrador não sabe quem é. Para descobrir, começa a revisitar o turbilhão de imagens e sensações que lhe vêm em mente. Borges, Beatles, Bart Simpson, burca, traficantes. Conforme repassa seu arquivo de lembranças, o personagem passa a duvidar de si mesmo, a achar que aquilo não pode ser representativo da realidade tamanho o seu grau de fantasia. Sem decodificar essa realidade fantástica, assume-se como um personagem criado, mas sendo um personagem metalingüístico, ciente de sua condição de personagem, continua sem se entender levantando hipóteses até o fim. Muito bem escrito. Bom encerramento da revista.

“Muitos dados, muitas informações, e não sei de onde vêm. Como se eu estivesse cego, por mais que as imagens cheguem nítidas. Síndrome de Charles Bennett? É uma das possibilidades. Os olhos estão mortos, mas o cérebro ainda sabe ver. E alucina”.

Marco Antônio de Araújo participa com quatro contos. Seu descolamento do cotidiano se dá com o estranhamento. Ao contrário de Causo, a brincadeira aqui se dá com o uso de palavras costumeiras em situações nem tanto. O que mais gostei foi Tempo Virtual, mate real por enfiar elementos de religião na ficção-científica, com direito a terroristas e estanques de fluxo temporal, e também pela nossa postura cada vez mais artificial em encontros sociais. Lá pelas tantas, me peguei numa viagem particular adaptando os santos de hoje, as estátuas que chamamos de imagens, para hologramas, imagens na essência da palavra. Uma fé futurista ainda menos palpável.

“Logo que percebeu como tratavam aquele que o aguardava na recepção, disparou a tomar providências. Tratavam-no por Senhor e se isso não era um código de segurança, era sinal para acionar dispositivos de etiqueta, protocolos de natureza diplomática”.

Brontops participa com três textos muito bons. Os três tratam de um futuro presente e são muito bem escritos, sem tropeços de ritmo. Em matéria de humor, é o destaque da Stalker com Buraco no céu, que comento aqui. O conto narra um contato com um alienígena que chegou por nossas terras. A questão inevitável é “quem será eleito como representante do planeta para tratar da rendição?”, no melhor estilo Marte Ataca. E aí, nesse choque, na hora de ver quem é quem, o narrador repensa Chuck Norris, Carla Perez, Bono Vox, Bush e outros nomes e situações que entregam nosso atual estágio de evolução, digamos assim. A piadinha do final é a cereja do bolo, no melhor esquema “seria cômico se não fosse trágico”.

“Dessa forma, há uma breve confusão para saber quem irá se render em nome da humanidade. Uns sugerem o papa, outros o Nobel da Paz, e aqueles que ainda se lembram ventilam o nome de Bono Vox”.

Para fechar, um conto que não decidi se gostei ou não no fim das contas. O conto Gigantes, de Mayrant Gallo, narra a história de um casal que encontrou uma pessoinha no jardim e a engaiolou. Um ser humano em miniatura. A história se desenvolve expondo as reações e decisões do casal diante daquele ser. É claro que humanos não prestam e não o tratam bem. Gosto do tom de fábula moderna, mas me incomoda a questão da moral, como comentei no começo dessa resenha. Além disso, o homenzinho demora a aparecer, deixando a primeira parte um tanto centrada na questão “a mulher manda, o homem enlouquece”.

“Davi voltou a percorrer toda a casa em direção aos fundos. Se o vento castigava ali na frente, não iria enfrentá-lo. Sairia por trás e, contornando a casa, alcançaria o jardim. Não só evitaria o vento, como chegaria bem mais rápido”.