É uma pena que a velocidade de geração de conhecimento e propagação da informação seja infinitamente superior à viabilização das mudanças que deveriam causar. A sociedade tende a inércia, uma frase clichê, infelizmente. De que outra maneira explicar que dez anos depois do Napster abalar a estrutura da indústria fonográfica, ainda não há um mercado consolidado de mp3s no Brasil? Enquanto o iTunes se torna um grande império, impulsionando inclusive a venda de audiobooks, aqui no Brasil os sites de vendas de música online geralmente não funcionam com outro navegador que não seja o Internet Explorer. E digo música online porque alguns não vendem mp3, e sim wma em qualidade de 160kbps, metade do que seria comparável à qualidade do cd. A tentativa das gravadoras de estancar o sangramento inevitável ainda deve perdurar. Nesse meio tempo, desperdiça-se o potencial das rádios digitais como canais de venda, e quiosques de mp3 parecem elementos de ficção-científica. Isso sem falarmos em e-books, por exemplo. Uma movimentação grande lá fora, e por aqui nenhum interesse em entender o formato, o que dirá comercializá-lo.
Além de uma inevitável migração do mundo físico para o virtual, e-books e mp3s sinalizam claramente que existe uma demanda não atendida pela indústria. O consumidor quer agora, quer escolher de dentro de casa, ouvir primeiro, levar música e livro no celular. O consumidor quer ver seus seriados no horário que decidir e não no horário estipulado pela operadora de TV a cabo. Uma palavra que talvez capture não o mecanismo mas a essência é interatividade.
Depois de estratégias diferenciadas de Beck, Radiohead e Prince, o nome da vez a arriscar é o Smashing Pumpkins. Ao invés de mirar no canal de venda, o grupo pretende atualizar o conceito de fã-clube e oferecer música e mídias para os fãs durante o processo de composição do novo álbum. A idéia é que os interessados paguem uma assinatura e durante doze semanas possam acompanhar as gravações e acessar fotos e entrevistas em vídeo, sabendo de antemão como será o novo som da banda.
Segundo Bill Coargan, o objetivo é criar um modelo de trabalho não lucrativo motivado por acesso e informação. A experiência de imersão virtual no estúdio servirá de inspiração para as músicas, influenciando diretamente no trabalho final.
O mais curioso é que o projeto só dará certo se os fãs tiverem interesse nos bastidores, por isso o grupo criará um mailing para analisar o potencial de procura. Se a demanda animar o vocalista, o preço cobrado será de $40 pelas doze semanas, com a promessa de pelo menos cinco atualizações por semana, de modo que o preço cubra por baixo 60 atualizações. O conceito de “tempo real” ainda não é certo, e o material deve entrar no ar até vinte e quatro horas depois de gravado, o que deve desagradar a alguns. A duração mínima de cada vídeo será de cinco minutos, o que levanta um aspecto relevante: interatividade não é sinônimo de espontaneidade. Se você vai cobrar pelo produto, é bom especificar tudo nos mínimos detalhes.
Apesar de não acompanhar de perto o trabalho do Smashing Pumpkins, espero que dê certo e siga a tendência de criação de conteúdo mais do que reality show. Acompanhar bastidores de gravação é uma ótima forma de minimizar a ansiedade entre um trabalho e outro, qualquer fã sabe disso, e se interatividade ainda é um conceito muito flexível dependendo do pacote, a sede por novidade parece não ter fim.

E o que dizer dos podcasts? São poucos os brasileiros que utilizam a ferramenta seja para o entretenimento quanto para informação. Há tanto para ser explorado em nosso país, assim como há uma falta de vontade tremenda das autoridades e organizações internacionais. Hoje mesmo ouvi uma notícia de que o Google está pensando em reduzir a qualidade dos vídeos do youtube nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Isso porque, segundo eles, precisam reduzir o prejuízo astronômico com o site que disponibiliza vídeos gratuitos. A nota dizia ainda que, apesar do grande número de acessos e de colaboradores brasileiros, os anunciantes estrangeiros (leia-se norte-americanos e ingleses) são os que mais geram verba publicitária para o site.
Até quando o “atraso” tecnológico vai puxar o Brasil para a banda dos – em desenvolvimento?