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Fronteiras da fantasia 6

A indústria de videogames tem mantido um relacionamento tão proveito$o com Hollywood que a gente tende a esquecer que nem sempre foi assim. Lá nos primórdios, adaptar um videogame para as telas era considerado tiro n’água total. Da mesma forma que o estigma do fracasso acompanhou os filmes de piratas até Piratas do Caribe enfiar o pé na porta, os games também precisaram de filmes-jogos importantes para levantar sua bandeira. Parece contraditório que uma imensa máquina de fazer e perder dinheiro tenha espaço para superstições, mas basta pensarmos que elas vêm da cabeça dos donos do dinheiro para tudo fazer sentido. O sucesso pontual de Mortal Kombat (US$120 milhões) não apagou a imagem de fracasso de Street Fighter, que fez US$99 milhões no total, mas só conseguiu US$35 milhões nos EUA, seu mercado interno, a metade do que arrecadou o seu rival dos arcades. Aliás, é curioso ver como alguns filmes considerados fiascos por serem muito ruins são na verdade um grande sucesso financeiro – Transformers (US$800 milhões) e Godzilla (US$380 milhões) estão aí que não me deixam mentir.

Um grande marco dessa pulada de cerca entre mídias, e que mudou definitivamente a percepção de Hollywood quanto ao mercado de games, foi Tomb Raider e sua diva virtual Lara Croft. Nas bilheterias, Tomb Raider nem chega aos pés do famigerado Transformers. Arrecadou $275 milhões, e precisou de $115 milhões para ser feito. Mas o buzz foi tanto que o filme ganhou uma continuação… que arrecadou Us$100 milhões a menos.  Se os números não são impressionantes para a realidade hollywoodiana, o que faz de Tomb Raider um marco? Três motivos bem simples: 1. Essa versão feminina de Indiana Jones foi encarnada por uma vencedora do Oscar: Angelina Jolie. 2. Ele quebrou o paradigma de que era preciso um protagonista masculino em um filme de ação para o filme fazer sucesso. O mesmo preconceito existia com os games. 3. O roteiro de Tomb Raider mofou muito tempo nas gavetas dos estúdios, até que o fabricante, se não me engano o Crystal Dymanics, resolveu usar as armas de marketing de Hollywood para vender o game. Lara Croft passou a frequentar o tapete vermelho, virou capa de revista e musa de muito marmanjo. Estava feita a transição. Mais uma vez, além do resultado concreto, estava em jogo o valor do simbolismo.

Antes de absorver os videogames e nadar de braçada nas HQs, Hollywood bebia mesmo era da literatura, sua fonte incontestável. Nada mais natural nessa sopa transmídia que a literatura e os games também acabassem se tocando. Quem é fã  conhece as narrativas complexas que movimentam hoje em dia a indústria de jogos. Imerso em Guild Wars e AION, consigo listar uma centena de personagens e viradas de trama que acompanhei nos últimos anos. Outro dia, me chamou muita atenção como fã de cinema o trailer de Deus Ex: Revolution.

Quem lê em inglês encontra fácil várias sagas literárias baseadas em jogos. Warcraft e Warhammer são os primeiros nomes que me vêm em mente, mas a lista é bem maior. Além de vender para o imenso público viciado nos  jogos online (que o fabricante conhece com precisão numérica) os livros também funcionam como um chamariz  para os novatos. A possibilidade de encarnar um personagem que você curtiu no livro, usar a mesma armadura e combater o mesmo inimigo forma imediatamente um ponte entre os dois universos. A interatividade é hoje uma das palavras-chave para a sobrevivência da indústria de entretenimento.

Uma estratégia parecida foi adotada pelos criadores do RPG Tormenta aqui no país. Eles chamaram Leonel Caldela para desenvolver romances passados em seu cenário que, segundo a editora Jambô, é o mais jogado do Brasil. Considerando o tamanho dos livros (os três têm mais de 500 páginas), diria que foi um projeto arriscado, em total sintonia com o mercado lá de fora, e que trouxe resultados positivos tanto para a editora quanto para o autor. Essa parceria do Trio Tormenta com Caldela atraiu um novo público para o RPG e apresentou o autor àqueles que já conheciam o jogo.  Quem estava acostumado a só ver os livretos de Vampire da Devir, de repente viu a mágica acontecer também no âmbito nacional, de forma muito mais robusta.

Ninguém melhor do que o próprio Leonel Caldela para falar um pouco dos desafios de criar uma história inédita dentro de um cenário pré-existente.

“O fato de escrever dentro do cenário foi um facilitador no começo. Não era necessário criar todo um universo a partir do zero, eu podia contar com o material que já havia sido criado antes. Como recebi muita liberdade dos autores originais (com pouquíssimas interferências depois que a trama básica tinha sido aprovada), peguei basicamente só o lado bom desse cenário pré-construído. Por outro lado, é preciso pensar no jogador de RPG (além do leitor) ao escrever em um cenário de RPG. Existem tramas que não são abordadas (ao menos não a fundo) nos romances, porque não desejamos resolvê-las com personagens não-jogadores. São tramas que pertencem aos jogadores, que serão resolvidas na mesa de cada um. O engraçado é que alguns jogadores de RPG viram os romances como verdadeiros manuais de jogo… Queriam descrições de locais e resoluções que só têm serventia mesmo na mesa de jogo, não para um leitor ‘comum’”.

Para quem acha que narrativas de RPG e literatura são a mesma coisa, ele dá a dica: “Fora esses aspectos, não foi muito diferente de desenvolver algo fora do RPG. É preciso ter os mesmos cuidados. Confiar apenas em agradar quem já é fã do cenário poderia levar a uma escrita preguiçosa (que, na verdade, provavelmente não agradaria aos fãs!). É preciso tratar o leitor que já conhece o RPG com a mesma importância de um leitor novo, apenas interessado em literatura de fantasia”.

Depois do sucesso do que foi batizado de Trilogia Tormenta (O Inimigo do Mundo, O Crânio e o Corvo e O Terceiro Deus), o autor se arriscou em uma nova empreitada, dessa vez em um universo criado inteiramente por ele, que começa com O Caçador de Apóstolos. Reparem que ele comenta algo similar ao tema de Fronteiras da Fantasia 5: que a história é mais importante do que  os efeitos especiais  e que as literaturas especulativa e realista podem aprender uma com a outra.

“O primeiro desafio foi construir o cenário em si. Como a história era, para mim, mais importante que o mundo em que ela se passa, não me concentrei no “worldbuilding” grandioso. O cenário de O caçador de apóstolos é o palco das novas histórias, mas não algo extremamente detalhado ou extenso. Também foi preciso ter um grande controle de qualidade, já que o livro novo não vem com o público “embutido” de Tormenta. A quantidade de opções também chega quase a assustar – agora, sem estar atrelado a uma marca e uma linha de produtos, qual público queremos atingir? O mesmo? Leitores mais velhos, mais novos, com mais bagagem cultural, sem conhecimento de fantasia…? Minha tentativa foi ampliar o interesse do romance para um leitor leigo, inserir elementos da literatura ‘mainstream’ que me agradam, sem alienar o público dos outros romances”.

“É possível fazer qualquer coisa. Decidir pode ser difícil. Se esse fosse meu primeiro romance, poderia haver uma tentativa de incluir elementos demais, numa grande “salada”, fruto da indecisão. Com um pouco mais de experiência, foi possível escolher os assuntos a serem abordados e as tramas a desenvolver com mais precisão”.


Fronteiras da fantasia 5

Um dos grandes riscos de quem lida com o fantástico é deixar que o universo de possibilidades engula a própria literatura. Em uma das melhores mesas que já vi no Fantasticon, Nelson de Oliveira, Ronaldo Bressane, Santiago Nazarian e Kizzy Ysatis discutiam suas práticas de escrita quando o Santiago jogou no ar a seguinte provocação (nas minhas palavras, não lembro mais as dele): que autores de gênero teriam um compromisso maior com o gênero do que com o texto, enquanto autores de literatura do cotidiano teriam um compromisso maior com a palavra e o refinamento das frases. Desde então, quando estou entre autores de literatura fantástica, levanto essa bola. A última vez, no podcast Papo na Estante, acabamos concordando que ainda há muito espaço para se melhorar. Generalizar nunca é o caso, mas pensando em todos os contemporâneos de literatura fantástica que li, o Santiago não deixa de ter razão. Alguns escritores de fantasia passam mais tempo pensando em seus universos do que no próprio texto. Parece ser mais importante definir o comércio entre “orcs” e “elfos” e colorir de canetinha o mapa das terras inabitáveis de Asgard  do que aprimorar as ferramentas de escrita e entregar ao leitor um texto forte por si só. Utilizando o audiovisual como exemplo, quero dizer que uma boa equipe de efeitos especiais não deve ser mais importante do que o diretor e o roteirista na composição do que se apresenta. Antes de pensar na equipe de 3D, converse com o seu diretor de fotografia, o cara que saca das sutilezas.

Assim, sempre aconselho autores de fantasia a lerem mais literatura realista, a.k.a. mainstream. Na hora de resolver uma cena, de apresentar o clímax, autores realistas não podem sacar bolas de fogo do chapéu nem dentes pontudos da cartola. Seus recursos são a diegese firmada desde a primeira página, o processo de mudança dos personagens e a literatura por si só (o que não significa que todos eles escrevam bem). Efeitos especiais não são permitidos, Sr. Spielberg. Se um autor de fantasia conseguir dominar esses recursos, será capaz de oferecer um livro sólido e de alcance mais amplo.

Venho tentando entender e, quando possível, ajudar a nova geração de autores de fantasia a criar suas obras, porque acredito que o fantástico tem de fato um papel dentro do universo maior da literatura. Pedi então para o novíssimo autor Jim Anotsu, que lançou esse ano Annabel e Sarah, participar da série Fronteiras da Fantasia, representando não só autor, como também o jovem em questão.

“Muita gente desenvolve seu gosto pela leitura através de livros de fantasia, ficção-científica, chick-lits. Então temos aí um dos fatores que tanto permitem a aproximação entre livros e leitores. Não acho que uma pessoa seja introduzida no mundo da literatura por Philip Roth ou Joyce”.

Perguntei também como ele lida com os dilemas da fantasia e se ele tinha alguma estratégia para fugir das armadilhas de um texto fantástico:

“O fantástico é muito importante  numa história, mas aquilo que conecta uma pessoa ao texto é o elemento com o qual ela pode se identificar. Se pegarmos os grandes clássicos da literatura fantástica, eles não foram imortalizados porque o monstro-polvo-rosa-choque é maior do que alguma criatura que veio antes”.
Seguindo a linha de raciocínio de que o fantástico é um recurso extra, que vem para somar, não para confundir, ele acrescenta: “Não se pode separar o elemento humano do fantástico, você pega todas essas coisas, idéias, o Caos Cremoso que Andre Gide comenta em ‘Diários dos Moedeiros Falsos’, e bate até que surja uma massa homogênea”.

Como o Jim tem uma percepção diferente da criação de mundos, pedi para ele falar como é o uso da fantasia no seu universo adolescente.

“A fantasia em “Annabel & Sarah” é o tíquete de metrô que permite você ler a história e acreditar nela. Então em primeiro lugar, ela aceita as duas garotas em posições e lugares que de outras formas elas não conheceriam. É a fantasia que cria o pacto de confiança entre as três entidades: leitor, narrador e personagem.  Em ‘Annabel e Sarah’, o uso da fantasia está em cada página, nos animais falantes que Annabel conhece ou na cidade de Allegria com sua ditadura da felicidade. E o leitor prossegue na história porque algum sentimento, alguma coisa ali é real o suficiente para criar uma identificação. Eu sabia desde o início que eu deveria tentar escrever a fantasia mais delirante possível, mas de uma forma que fizesse com que o leitor ainda se identificasse com eles. Porque se você retirar, por exemplo, Dean Chinaski, uma raposa delinqüente, do seu contexto, terá um jovem perdido como muitos outros por aí”

Para fechar, Jim Anotsu fala do momento atual da fantasia: “Estamos vivendo um ótimo momento, muitos autores estão ganhando a chance de mostrar seus trabalhos e as pessoas começam a finalmente respeitar um gênero que durante muito tempo sempre foi a irmã mais feia da ficção científica, mesmo que grandes clássicos como “A Divina Comédia” de Dante ou “A Tempestade” de Shakespeare sejam histórias de fantasia. Eu tenho esperanças de que muitas coisas super bacanas estão vindo por aí”.

Fronteiras da fantasia 4

Apesar do mundinho literário ser cheio de divas, o seu habitat natural é a terra da música, onde contam com um arsenal de personas tiradas do armário de acordo com a ocasião, bastando ajustar o ângulo do nariz e o tamanho do salto. Lembro quando Marilyn Manson lançou sua coletânea Lest We Forget e deu uma entrevista falando que se retiraria do cenário musical, pois não fazia sentido prosseguir em um mundo que idolatrava Britney Spears. Naquela época, os dois pareciam de fato extremos opostos de um mesmo jogo. Ele, esquisitão, fazendo seu som pesado e industrial, rasgando bíblias e se divertindo com clipes sombrios. Ela, bonitinha e virginal, fazendo um pop romântico milimetricamente ajustado no auto-tune, com videoclipes carregados de cor de rosa e toques de tom pastel.
Mal sabia Mr. Manson o que o futuro reservava aos dois. Descumprindo sua promessa, Manson voltou com novos cds, visivelmente sem saber como equilibrar seu visual de espantalho do Tim Burton com o peso da idade. Parecia flertar com uma paródia de si mesmo, mais colorida e radiofônica. Já dona Britney endoidou de vez. Virou uma Christiane F. de baixo orçamento, raspou a cabeça, deu vexame na MTV, avançou careca em cima de paparazzi e mais uma lista de bizarrices dignas do circo dark-comercial de Marilyn Manson. Superada a loucura (que é coisa que nunca se supera), Britney reencontrou o sucesso e soube tirar proveito da nova imagem.

Hoje em dia, com a literatura fantástica se fazendo mais presente, os novos autores têm passado por dúvidas parecidas. Quem eu quero ser para o público: Monster Manson ou Crazy Spears? A grande cerca no jardim das traças ainda é a que separa o grupo realista do fantástico. De um modo cínico, é como escolher entre ser lido ou respeitado. Com uma linha você ganha público, com a outra você ganha teses. Por muito tempo, os autores de FCF (ficção-científica e fantasia) se perguntaram why oh why os autores de literatura realista têm tanto espaço na mídia e nas prateleiras e nós somos esnobados pelas editoras, catalogados na pilha de reciclagem junto com a auto-ajuda? A resposta rápida é que um grupo tinha os amigos certos, mas deixando isso de lado, o ponto é que o cenário mudou. Aos pouquinhos, a literatura fantástica vai se firmando como um movimento, com autores que vendem muito bem obrigado, como André Vianco (vampiros com superpoderes), Nazarethe Fonseca (vampiros românticos), Raphael Draccon (fantasia com referências pop). Depois de cada lado espiar o gramado alheio, já tem quem diga que as editoras não dão o devido espaço para literatura realista, uma inversão curiosa de ponto de vista, mesmo que não seja verdadeira.

O que se percebeu nesse espia-espia é que a cerca que dividia o jardim em dois na verdade era baixinha e fácil de pular. Ao invés de escolher um dos lados e começar a guerrilha, os autores ficaram mais confortáveis de falar uns dos outros e até, pasmem, falar uns com os outros. Nomes de peso como Nelson de Oliveira apostaram em coletâneas híbridas, misturando ambos os grupos, como foi o caso de Todas as Guerras, que colocava no mesmo balaio autores como Fábio Fernandes e Veronica Stigger, cada um no seu estilo mas com um tema em comum. Dele também veio a Futuro Presente, essa um OGM – organismo geneticamente modificado – em que autores realistas e fantásticos tinham que escrever FC. Se o primeiro recebeu thumbs up de todo mundo, a segunda já colheu resultados diversos, pois escrever FC não é tão fácil quanto parece (e que fique claro, autores fantásticos escrevendo literatura do cotidiano também cairiam em um punhado de armadilhas). Independente disso, vale o simbolismo dos projetos, a intenção da mistura e, acima de tudo, o lembrete de que boa literatura é boa literatura, e que livro ruim é livro ruim não importa a etiqueta.

 

Uma vez, comentei dessa dúvida cruel com Saint-Clair Stockler. Para que lado seguir? Fantástico ou Realista? A resposta, muito bem colocada, foi: para que ter um só? Agora que o Saint está para lançar o seu primeiro livro, voltei a ele com uma pergunta parecida. Espia só o que ele respondeu:

“Por diversos fatores, sempre me considerei um escritor marginal, no sentido mais lato do termo: o de estar à margem. Meus interesses literários, tanto quanto autor como quanto leitor, se dividem entre “literatura mainstream” de um lado e “literatura de gênero” de outro. Sempre se dividiu, pelo que me lembro. Mas eu vivia uma espécie de “Síndrome de Dr. Jeckyll e Mr. Hyde”: me torturando ao achar que esses dois elementos, tão díspares entre si, jamais poderiam conviver juntos. Mas depois de muito, muitíssimo tempo, entendi que essa é uma falsa dicotomia e que eu poderia, se assim o desejasse, escrever tanto textos mainstream quanto de gênero. De fato, meu livro é uma mistura de ambas as correntes. Afinal, porque circular no âmbito de apenas um dos mundos quando posso me entregar às delícias dos dois? O risco, pois sempre há um risco, é você não conseguir produzir bons textos nem de um nem de outro tipo. Mas o bom de se viver num país em que a literatura (ainda) não é levada a sério é que, se você fizer besteira, quem vai se importar?”

Saint-Clair Stockler aproveita e fala mais sobre o trajeto do Dias Estranhos até chegar à editora Draco, e mostra que também vê divas por aí: “Não sou um escritor vindo, ou originado, da Internet. Já no começo da década de 90 – portanto, antes da criação da Web – eu já escrevia. Contos, sempre, porque não sei se tenho fôlego, disposição, paciência ou saco para um texto longo como um romance. Gosto do golpe mortal que é o conto, sem muita encheção de linguiça. Meu primeiro livro, Dias estranhos, que será lançado até o final do ano, é uma reunião de contos. O primeiro desses contos foi escrito em 1993. Levei 13 anos para escrever o livro todo. Pois é, sou lento mesmo”.

“No início, quando escrevi os primeiros contos, tinha aquela ambição de querer ganhar o Jabuti, de aparecer em todas as revistas literárias, dar entrevista pro Prosa & Verso (caderno de literatura do jornal carioca O Globo). Com o passar dos anos, e conhecendo pessoalmente diversos escritores, fui caindo na real. Se existe uma raça de pavões em formato de gente, ela é a dos escritores. Antes, eu guardava uma imagem um tanto quanto idealizada de pessoas que escreviam ficção, mas depois, com o convívio, percebi o quanto de vaidade, inveja, mentiras, despeito e golpes-sujos é feito o “ecossistema” literário. Isso não me fez amar menos a literatura, mas certamente me fez olhar com olhos mais realistas essa estranha criatura chamada “escritor”. Ainda mais em um país como o Brasil, em que temos ex-presidentes da Academia Brasileira de Letras com dezenas de livros publicados mas que, de fato, nunca escreveram um livro sequer (viva o ghost writer!) ou em que alguns dos escritores mais importantes e premiados pagam, por baixo dos panos, os seus próprios prêmios. É tudo Maia, ilusão, jogo de espelhos e fumaça. Então, mais próximo da conclusão do Dias estranhos,  simplesmente deixei de me importar com essa talvez possível e certamente volátil fama. Poderia até nunca publicar o livro se algo dentro de mim não dissesse: é um livro bom, que tem algo a dizer e que ressoa na mente dos seus leitores. E esse “ressoar”, para mim, faz toda a diferença”

Em suma, se você nasceu para ser Britney, não tente ser Manson. Invista no que você tem de melhor. Mas se você se sente confortável com os dois lados, não tenha medo de arriscar. Estamos em tempos de Lady Gaga. Alguém duvida que os dias ficarão cada vez mais estranhos?

Fronteiras da fantasia 3

Será que escritor de fantasia é igual baixista de grupo de rock? Todo mundo sabe que ele existe, mas ninguém vê, e mesmo no show tem gente que acha que ele não é real? Algo que nunca decidi se é bom ou ruim é a falta de uma categoria fantasia nos sites de vendas de livros. Você encontra terror, ficção-científica, policial, mas a fantasia está sempre misturada aos romances ou à literatura infanto-juvenil. Eu sou contra a segregação e o nicho autodestrutivo, mas defendo a existência dos rótulos dos gêneros como ferramenta de orientação de mercado. Nunca falaria para um autor limitar a sua criatividade para não fugir de um gênero ou não afastar os leitores (e, quem sabe, os editores). É preciso ser fiel às próprias idéias e decidir até onde você está disposto a ir por elas.

Só para citar um exemplo: Stephen King já comentou em entrevistas que o editor sempre torcia o nariz quando ele levava para análise um livro que não tinha elementos sobrenaturais. Curiosamente, os livros que mais gosto do autor são histórias de terror psicológico sem fantasmas e afins. Quem já leu Jogo Perigoso (Gerald’s Game) sabe do que eu estou falando. Então, mesmo esse carinha que vende milhões, sabia que teria que convencer o editor a apostar na sua idéia e convencer o leitor de que ele (ainda) é bom no que faz. É esse o jogo, e encontrar um ponto de maleabilidade me parece saudável. Escrever é seguir em busca da própria voz, é descobrir o que dá ao seu texto um sabor que nenhum outro tem. Mas nada impede o autor de esticar um olho para o mercado e entender como a engrenagem funciona.

Aproveitando o King para retomar o tema dos rótulos: A minha geração ao pensar em Stephen King sempre evocará  títulos como Cemitério maldito, O Iluminado e Carrie. A galera mais nova, que começou a acompanhar o King mais recentemente, provavelmente citará a série A Torre Negra como referência. Na bagagem antiga, uma etiqueta de terror. Na nova, a de fantasia dark. Nada impede que um autor se renove, mas será que o King teria hoje a fama que tem se não tivesse, no começo da carreira, apostado em um perfil de terror?

Levanto sempre a bandeira da fantasia urbana, uma fantasia ambientada nas cidades. Lá fora, é um gênero conhecido e bem explorado. Muitas autoras de romance paranormal, gênero que não conta com prestígio da crítica apesar de vender igual água no deserto, começaram séries paralelas de fantasia urbana, buscando carona no barco. São as mesmas autoras, escrevendo do mesmo jeito, mas com um grupo de personagens diferentes que permita ao seu editor colocar um novo selo no produto final. Se você perguntar se alguém gosta de ficção-científica provavelmente a pessoa pensará em aliens e naves espaciais, raramente dará como exemplo uma história alternativa. O mesmo acontece com a fantasia. No imaginário, Tolkien é onipresente, mas há muito além dele por aí. Agora, com a produção nacional crescendo e mais autores entrando no mercado, essa pluralidade ficará mais evidente.

Começo a trabalhar em breve no Necrópolis, do Douglas MCT (não confundir com o MST), um livro assumidamente de dark fantasy, ou fantasia dark. Conversando com o autor, ele me passou um mix bem diverso de referências, mas ficou claro que a sua maior inspiração é o universo de Hellboy. Fãzaço de Mike Mignola, o Douglas acompanha Hellboy desde moleque. Mesmo quem não conhece a HQ já deve ter visto as adaptações para o cinema.

 

Na mitologia do livro, Necrópolis é o nome de um mundo fantástico. A história começa numa cidade interiorana, depois a ação é movida para lá. Pedi para o Douglas explicar melhor a idéia dele:

“NECRÓPOLIS é o Mundo dos Mortos. O Outro Mundo. Um lugar habitado por criaturas fantásticas e sobrenaturais. Onde há planos e subplanos que levam a mundos Etéreos, de Pesadelos e Magia. Dentre os 8 Círculos do Universo, no sétimo – o Círculo de Moabite – existem 3 mundos, um deles é Necrópolis.

Neste lugar há duas forças opostas da natureza local – nem boa nem má: o Niyanvoyo, onde as almas (niyans) caminham seu trajeto final antes de caírem no Abismo e assim inexistirem. O propósito aqui é o fim para dar espaço ao novo; também chamado de A Travessia da Fronteira das Almas. Em contrapartida, há a força contrária: Ouroboros. O ciclo. Tudo que termina tem um novo começo, uma ressurreição. Recomeço, vida renovada.

Em Necrópolis há humanos também, em castas distintas: ladrões, Bárbaros (Sulistas), Monges, Mercenários, Militares (da Esquadra de Lítio), na Realeza e nas pequenas cidades por eles levantados. Há dragões, fadas, duendes, gnolls, lycans, vampiros (talvez só um), corujeiros, virleonos, anões, gigantes, oaiprocses, reptilianos, entre outros. Há Magos (sujos e nada honrados). Há um Deus-Serpente. A vida não existe, todos por lá tem o que chamo de sobrevida.

A força que move essa realidade – e todas as outras, paralelas – é o Ectoplasma. Magia é para poucos e menos relevante no plot. Há armas místicas, poderes obscuros, criaturas perigosas e seres de personalidade muito ambígua. Todos eles.

E há um rapaz qualquer, humano da Terra, bem comum, que vai para lá. Ele perdeu e quer de volta. Vida e Morte colidem. E nada é o que parece. A esperança é uma utopia”.

 

O DG sabe como ninguém o que é enfrentar a geladeira amiga. Foi de freezer em freezer até encontrar uma editora disposta a apostar no projeto. Aproveitou esse tempo para passar o livro para leitores-beta e fazer modificações, mas sem descaracterizar a idéia original. Estou bastante curioso com o que vou encontrar pela frente.

Para quem quiser conhecer o diário de bordo do Douglas MCT, o autor montou um blog com os bastidores do Necrópolis. Se você não faz a menor idéia de quem seja o Hellboy, a wikipedia pode ser um bom lugar para começar.

Fronteiras da fantasia 2

Digo assim na lata que a fantasia é tão escapista quanto qualquer outro gênero literário. Não quero entrar nos méritos dos limites entre cinema ficcional e documentário (ops, mídia errada), mas é sempre bom lembrar que a ficção também é um registro do pensamento vigente em determinada época, e que o documentário jamais será 100% desprovido de interferência devido à intermediação do olhar, adicionando ao produto final uma dose de ficção. O cinema é uma arte liberada por parte de pai e mãe de qualquer obrigação que não seja a de contar uma boa história. Um filme não precisa de lição de moral para ser relevante. Muito pelo contrário, ensinamentos disfarçados de plots denunciam fraquezas condenáveis de roteiro.

Na literatura, vale a mesma regra. O que devemos perseguir como autores é o aprimoramento do contar, devemos ter como objetivo narrar uma boa história que não deixe o leitor escapar ileso ao virar de páginas. E a fantasia se apresenta como um terreno amplo para as mais diversas manobras, seja em livros de puro escapismo ou livros que falem da ditadura, da guerra, do preconceito contra minorias, do mundo cão, etc.

O que vejo cada vez mais é que a fantasia tem se fortalecido como um gênero capaz de fazer a ponte entre literatura e mercado, capaz de se conectar com o leitor e prender sua atenção na disputa acirrada com outras mídias.  A fantasia de qualidade consegue dialogar com o público jovem, ajudando na formação do leitor, e com o público adulto que sabe o que procurar no mar de informações.

“Nossa, Eric, que bonito isso. Foi por esse motivo nobre que você escolheu a fantasia para escrever? Fiquei até emocionado”. Para um livro dar certo é preciso que o autor tenha afinidade com o que está escrevendo. Até onde meus olhos alcançam eu jamais conseguiria escrever um bom livro de ficção-científica. Simplesmente não faz parte do meu DNA literário. Eu gosto de escrever na fronteira entre a fantasia e a literatura do cotidiano, é ai que me encontro, só isso. Mas também tenho o contato com o público como uma das minhas grandes recompensas como autor, por isso tenho pesado o pé mais para o lado da fantasia. Por isso também aceitei trabalhar com alguns novos autores na construção de seus trabalhos. Pode ser que daqui a 10 anos eu descubra que investi mesmo foi num imenso desperdício de tempo, mas o que acredito hoje é que uma nova leva de autores encontrou, assim como eu, a fantasia como ferramenta de comunicação e formação de público, então tento fazer parte disso desde sua estrutura primordial, dedicando tempo não só aos meus projetos pessoais, mas também ao desses autores que estão chegando agora (ou que já estavam escondidos por aí).

Terminei esses dias o copidesque de O Baronato de Shoah, de Roberto Vieira. O Zero (para os íntimos) anunciou a criação do livro passo a passo no twitter, chamando a atenção do público e da editora. Desde então, a história vem passando por um processo de reconstrução e amadurecimento, e eu entrei na etapa final. O Baronato une a estética steampunk, mais comumente relacionada à FC, com a ambientação da dark fantasy (a fantasia que não é fofinha cheia de fadas e elfos cintilantes). O Zero é de uma geração que viu os games evoluírem e levarem narrativas complexas ao mercado, apresentando clímaxes que competem de igual para igual com as produções Hollywoodianas. Como não poderia deixar de ser, sofre influência direta disso, mas de um jeito positivo. O próprio autor fala sobre o assunto ao explicar o universo do Baronato:

“Nordara é o principal continente do Baronato de Shoah, uma terra grandiosa, onde reinos e impérios humanos dividem espaço com territórios desconhecidos e perigosos. Sua estranha tecnologia a vapor é cria de uma era há muito passada, a Era dos Titãs, quando criaturas de imenso poder a tudo governavam. Máquinas de formas bizarras são vistas ao lado de construções antigas, que não foram derrubadas, mistérios arcanos são esquecidos enquanto o conhecimento científico avança cada vez mais, sem moral nem ética.

Utilizando a estética Steampunk o Baronato de Shoah é altamente influenciado pela literatura épica, o vitoriano, jogos de videogame, como a série Final Fantasy e histórias em quadrinhos, principalmente das revistas Heavy Metal e A Casta dos Metabarões. Além, é claro, de uma boa dose de ousadia.

A magia é rara em Nordara, tratada com respeito e medo, e um trunfo dos povos do norte, os Khans, que são considerados bárbaros pelos demais reinos. O oriente é um mistério a ser desvendado e um inimigo em potencial, e o passado é um monstro prestes a despertar e conquistar aquilo que acha que lhe pertence”.

O livro tem uma narrativa fragmentada que acompanha um pequeno grupo de heróis desde o colégio (uma escola que prepara guerreiros) até seus derradeiros destinos. A grande questão abordada é como um jovem se reposiciona diante da guerra, como ele redimensiona seus valores e o que ele faz quando o que quer é diferente do que a “sociedade” espera dele.

Se você se interessou pelo gênero (cada vez menos sub) Steampunk, um bom site de referência é o Cidade Phantástica, de Romeu Martins, com links para diversas fontes de informações. Quem tiver curiosidade sobre o Baronato de Shoah pode visitar o blog do autor Roberto Vieira. O lançamento está previsto para o segundo semestre de 2010.


Fronteiras da fantasia 1

O Fantasticon é um evento anual de literatura fantástica (ou literatura especulativa, para os mais intelectualizados) que rola em São Paulo e já virou referência para os profissionais da área. Em 2010 ele aumenta sua duração e acontece nos dias 27,28 e 29 de agosto na Biblioteca Viriato Correa. Mais do que reunir escritores, amigos e leitores pingados, o Fantasticon é um evento que lança tendências. Geralmente é nele que aparecem as perguntas e temas que percorrerão twitter, blogs e comunidades do orkut durante o ano. Quando não, é lá que os temas recebem seu carimbo de “assunto do momento”. Foi ele que firmou a mesa de editores replicada em todo santo evento, foi lá que a lit. especulativa decidiu que a grama do mainstream era mais verde, e onde ela encorpo(ro)u seu caráter marginal no melhor estilo Ferréz de ser. Foi lá também que o Brasil mostrou-se alinhado ao renascimento do movimento Steampunk mundial e que o new weird foi revelado ao público menos antenado com a literatura mundial. Bem provável que tenha sido no Fantasticon a primeira vez que ouvi que é a aula de literatua do colégio a grande responsável pelo desinteresse literário do brasileiro. E toma pedra no Machado de Assis. Pedra essa que estão tacando até hoje sem nem variar o alvo.

Por isso tudo e mais um pouco, o Fantasticon é um espelho da situação da literatura fantástica no país. Praticamente uma FLIP sem o cheiro de coco de cavalo nas ruas e garrafinha de água por 5 reais. Um verdadeiro resumão que enxerga até onde o orçamento permite. Afinal, é preciso dinheiro para trazer gente dos 4 cantos do país, o que pode privilegiar o cenário Rio-Sampa mais os autores que consigam viajar sem patrocínio. Coisas do capitalismo, é o jeito.

Não por acaso, os gêneros mais comentados no fantasticon são a ficção-científica e o terror, deixando a fantasia como irmã pobre da literatura fantástica. Mesmo numa época em que as fronteiras entre gêneros estão cada mais tênues, vale a pena se perguntar por que a fantasia brasileira contemporânea é represetada por autores pontuais e não como um movimento ou qualquer outra unidade de coesão que o valha. O terror tem hoje a força da comunidade vampiresca, imbatível em termos de vendas, e livros que orbitam ao redor dos dentuços. A FC, mesmo marginal em sua nerdice que hoje virou nerd power, sabe organizar seus debates, encontros e esticar um olho para autores atuais.

E a fantasia, por onde anda?  Será que em 2010 ela ganha força o suficiente para marcar presença nas prateleiras?  Tudo indica que sim. Aproveitarei meu atual envolvimento com o gênero para levantar algumas interrogações por aqui no mês de maio. Fiquem de olho.

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