16. Um Carioca em São Paulo

Quando eu digo ninguém acredita, mas eu adoro essa cidade. Onde mais o esquadrão antibombas interditaria uma avenida, com direito a helicóptero, só para desarmar um pote de geléia esquecido no chão? O segurança do banco que denunciou ou ganhou o prêmio de funcionário mais atencioso do mês ou passou a vergonha do ano. Como se não bastasse, interditaram uma ponte na Marginal Tietê para desarmar um vidro de perfume. A coisa aqui é séria. Certo, o perfume tinha o formato de uma granada. Você puxa o pino e explode. Coisa fina. Channel nº5 fica no chinelo. Até eu me enganaria. Prêmio mau gosto total para quem inventou a tranqueira.

Nos meus dois anos de convivência, conheci três tipos de paulista. O primeiro não entende como eu pude viver trinta anos no Rio de Janeiro. Como alguém pode preferir qualquer cidade do país a São Paulo, ó ceus? É aquele que acha que a dengue é só uma forma de seleção natural e que o tsunami errou de alvo. Quer um, só assim, para dar uma afogada geral abrindo espaço para a recolonização. O segundo tipo não entende o que eu vim fazer aqui. Geralmente é alguém que fica três horas preso no trânsito todos os dias, faz terapia duas vezes por semana e acha que São Paulo é a única cidade onde a chuva traz engarrafamento. Está torcendo pelo dia em que a cidade vai parar congestionada só para poder dizer “eu avisei”. O terceiro tipo não está nem aí. Cidade é cidade, tudo a mesma porcaria, quem quis mudar foi você, agora se vira. Moro aqui porque moro, amanhã posso me mudar e ninguém tem nada a ver com isso. É o tipo de paulista que sabe se divertir e curte happy hour quarta-feira.

Meu choque de realidade com essa nova civilização foi estudar o Cervantes. Eu não sabia o que dizer nem como me comportar diante das criaturas míticas que falam “ô meu” de cinco em cinco minutos. Foi lá que descobri que existe uma gradação para o “ô meu”, batizada de omeuzômetro. Tem gente com o ô meu totalmente sedutor. É algo natural. As vogais saem numa cadência harmônica que encanta, de verdade. É o grau dez. Já outras têm ô meu mais fundo do poço que já ouvi. Raspa de tacho em dia de pouco movimento. É aquele ô meu de bar depois da quinta cerveja. Grau zero na lata, literalmente. Chega a doer o ouvido. Outra experiência única foi comentar que sou carioca na prova oral do espanhol e a professora começar a me descascar, ciente de que nenhum aluno são bate boca com professor em dia de prova. Ela estava indignada porque no banheiro do palácio do catete havia uma placa escrita “não lave os pés na pia”. Praia. Pé. Areia. Popular. População. Percebe? Revoltou-se também porque em Copacabana alguém atirou um saco de lixo pela janela em cima dela. Pensei em explicar que o problema não era Copa, mas ela, mas preferi preservar a minha nota e terminar logo com a tortura. Se você conhecesse a peça me entenderia. Até na Finlândia tacariam um saco de lixo. Quando me despedi falando “boas férias” ela retrucou “ta, mas anda logo e fecha a porta”. Uma coisa fofa dessas que dá vontade de apertar a bochecha. E arrancar o siso no percurso.

Outra coisa engraçada de São Paulo são as passeatas na Avenida Paulista. Todo dia tem uma. Parece sorteio de programa de auditório. Vai alguém lá, enfia a mão no chapéu e sorteia um tema. Tem fora Serra, fora Lula, fora Sarney, fora Chavez, fora Bush, fora terráqueos. Viva a Independência de Saturno. Direitos iguais para os poodles. Passeata para todos os gostos, com todas as trilhas sonoras e sempre com meia dúzia de pingados. Se bobear tem gente que ganha a vida assim, participando de passeata. Trinta reais a hora, só para ver se enche.

Mas nem só de passeata vive a Paulista. No Natal há uma espécie de tour dentro de um trenzinho para ver os enfeites que os grandes prédios e bancos armam na calçada. É um tour de hora marcada para você ouvir as músicas e ver as apresentações automáticas dos robôs mega zords barbudos e sorridentes que fazem hohoho. Se o Anthony Burgess tivesse pensado nisso, o final de Laranja Mecânica seria diferente. Lobotomia avançadíssima.

Quando não tem música de Natal nem passeata, quem gosta de andar para lá e para cá sou eu. O bom de andar numa avenida é que você não tem ponto de chegada. É só ir, cansar, voltar e tomar sorvete e chamar isso de programa. Não tem praia de um lado nem favela do outro, mas ainda assim vale o passeio.

Quem sabe não vem um Histórias da Noite Paulistana por aí?

15. Lucas Moginie Talk Show I

Lucas, meu nome é Sandro, sou seu fã e assisto seu programa todos os dias no intervalo do canal pornô de assinatura. Faz uns 10 anos tenho uma caspa horrível que não consigo tratar, fico envergonhado. Você tem alguma sugestão?

Meu caro Sandro, antes de tudo, obrigado pela audiência. O canal pornô anda caído, não? O seu problema é muito simples. Deixe um boné no armário com cinco pedras de naftalina em cima. Quando for sair, coloque o boné e use camisas claras. A naftalina não diminui a caspa, mas como ninguém vai chegar perto de você, o antrax vai passar despercebido. Você sabe, não? O que os olhos não vêem…
(aplauses)

Lucas, sou Sueli da Costa e não me conformo com o fato de você ter roubado a vaga da Marcia Goldsmith. Mas como só tem tu, quero tirar uma dúvida. Ontem minhas amigas disseram que para deixar de ser virgem é preciso dar três vezes. Isso é verdade?

Sueli. Da Costa ou da frente, deu uma já era. Inclusive manda um beijo pra sua vizinha e diz que ela esqueceu o celular aqui em casa. Provavelmente ela se confundiu com uma piada antiga sobre o sexo masculino que não vem ao caso. Aliás, me tira uma dúvida, você é um travesti, Sueli? Foi só pra rimar, viu. Boa sorte na noitada.
(aplauses)

Lucas, eu já afoguei Santo Antônio, esfreguei mamão macho na calcinha, roubei a cueca do pretendente no varal e molhei com leite de cabrita, e até agora nada. Você tem uma simpatia dessas bem boas, bem arretadas para eu conseguir um namorado?

Olha, anônima, dá próxima vez seja educada e diga seu nome, combinado? Se eu fosse Santo Antônio pós-afogamento o único homem da tua vida seria o coveiro. Mas vou te dar uma dica, tem uma mãe de santo aqui perto de casa que traz a pessoa amada em três dias. Se ela não der jeito te passo o telefone de um garoto de programa porreta que atendeu todas as minhas tias encalhadas e triplicou a minha herança.

Uma última dica, lave a calcinha com o mamão, ok? Vai que dá formiga, e aí já era a pessoa amada e o resto também.

(risos)
(aplauses)

E agora uma pergunta por e-mail, que eu sou chique e tenho laptop no programa.

Lucas, me chamo Eduardo, tenho 17 anos, sou católico e virgem. Minha namorado não quer me masturbar porque tem medo de engravidar se cair esperma na sua mão. O que eu digo para ela?

Oi, Eduardo. É sempre bom ter gente nova por aqui. Em primeiro lugar “na minha mão” não, na dela, por favor, que ainda não me convidaram pro ménage. Em segundo lugar ou é minha ou é namorado! Foi erro de digitação ou o quê? Hum? Bem, o medo dela tem fundamento sim. Como você só sabe se masturbar onde acha que ela vai enfiar a mão depois? Engravidar do próprio dedo seria muito triste. Vê se cresce, aparece, trepa logo e manda a tua namorada arrumar alguém melhorzinho.

Mas não é só isso, Eduardo! Pela pior pergunta da noite você acaba de ganhar um tênis montreal, um pacote de camisinha total flex e um mês de assinatura da revista Tricô! Afinal, precisa fortalecer a outra mão também, não é? Cuidado com as agulhas!

(aplauses)
(more aplauses)

É isso, pessoal. Espero ter esclarecido essas dúvidas tão pertinentes e tornado a vida de vocês um pouco melhor. Até o próximo programa.