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Entrevista com Rodrigo del Arc

* entrevista publicada anteriormente no Aguarrás.

01. Você comentou no último pocket show que trabalhava de manhã, estava ocupado a tarde e só de noite conseguia parar para compor. Como foi o processo? Você criou um cantinho à parte de tudo para trabalhar suas músicas ou a adrenalina do dia ajudava de alguma forma?

Em 2007, quando estava compondo o disco que viria a ser o “A KIND OF BOSSA”, a minha vida estava virada de ponta-cabeça. Tinha perdido meu pai inesperadamente e tive que arrumar um trabalho fixo rápido para poder ajudar em casa. Não foi nada fácil, e realmente trabalhei demais naquele ano, incluindo folgas e feriados em que eu arrumava uns comerciais de TV para fazer. Lembro que no ano não trabalhei apenas 7 dias, sendo que em um destes dias eu fiquei bastante doente. Foi uma situação nada agradável para mim, pois, além de tudo, eu queria dedicar todo o meu tempo para a música e não podia. O tempo livre que sobrava para a música era quase sempre no período da noite.

Eu, na verdade, acho difícil separar um cantinho à parte do dia para compor, porque na maioria das vezes as ideias vem quando paro um minuto para descansar. Então foram incontáveis madrugadas em que eu ficava acordado junto com os meus parceiros, Edu e Nick, para compor, arranjar e produzir as músicas. Quando a inspiração não vinha, a gente dava uma volta no centrão de São Paulo. A gente falava de arte, conversava, tomava um café (e quantos cafés a gente tomou!), muitas idéias surgiam assim, no meio de uma conversa, daí a gente pegava o violão e corria para o computador para gravar tudo!

02. E como foi encontrar brasilidade nessa mistura de sonoridades que é o A Kind of Bossa? Você sentou já sabendo o que queria fazer ou foi definindo o som aos poucos?

A sonoridade do disco foi se definindo aos poucos, não estava preocupado em ficar preso a um único estilo, ou a “estilo” algum. Acho que a brasilidade vem das minhas influências e dos ritmos brasileiros que me fascinam. O Brasil tá no swing e na “malandragem”, no bom sentido da palavra, é claro. No começo até estranhava algumas misturas, depois fui acostumando e acreditando cada vez mais no que estava fazendo. Isso foi se definindo pela emoção, o termômetro era o simples fato de eu estar curtindo ou não. Acho que música pode ser feita assim; a sua emoção é o que determina o que vai ficar e o que não vai ficar numa música.

03. Ouvi da minha irmã no Rio a máxima que “Ao vivo o Del Arc faz todo o sentido”. Aqui em São Paulo tive uma impressão parecida, de que o som do cd, os vídeos no youtube, as tuitadas com os fãs, tudo isso se soma num crescente ao vivo, numa energia diferente. Como você vê essa relação do som do artista apresentado no cd e do som feito ao vivo?

Eu realmente me emociono muito cantando. Quando estou no palco, quando eu canto, eu estou tentando dizer alguma coisa, quero passar uma mensagem e sentir cada palavra da letra. Quero estar integrado na música, junto com ela, vivendo ela.

No CD “A Kind of Bossa”, procurei deixar tudo do melhor jeito possível para que todos os elementos na gravação conversassem entre si, que fizessem um sentido. Junto com os meus produtores Nick Gutierrez e Edu Maranhão, sem pressa, cuidamos dos mínimos detalhes, até por isso trabalhamos por quase 2 anos até finalizar o disco. Esse tempo é muito especial e precioso, um privilégio. Agora, por mais que o CD seja feito com muito carinho e cuidado com os detalhes, nada se compara com a emoção de viver as musicas ao vivo. No show, eu consigo olhar para a plateia e sentir a reação das pessoas. As energias se somam com as de quem está assistindo, a interação é maior. O mais legal de um show é que um nunca será igual ao outro.

04. Tem conseguido abertura que esperava? Ou o fato de cantar em inglês exige uma etapa extra de convencimento das pessoas?

Acredito que estou tendo uma abertura até maior do que esperava, principalmente no Brasil. Às vezes o inglês exige sim uma etapa extra. As pessoas precisam sentir mais do que nunca as palavras. Eu vejo isso como um incentivo para me entregar cada vez mais.

05. Fale um pouquinho do contrato no Japão. Quais são as expectativas em torno?

Fui muito bem recebido no Japão, e estou sendo bem divulgado pelo mesmo selo que trabalha com Milton Nascimento, Seu Jorge, entre outros grandes nomes da MPB. Graças a essa boa exposição, chamei a atenção de outro selo forte na Coréia do Sul. Vou lançar o disco por lá também entre abril e maio com 3 faixas extras: uma releitura do clássico “The Look Of Love”, do grande compositor Burt Bacharach (letra de Hal David), e duas versões da faixa 5 – “Trip”, remixadas pelo YUBABA que é uma dupla mineira de DJs que está crescendo cada vez mais no cenário eletrônico internacional. Estamos na expectativa de ficar mais conhecido por lá, e futuramente levar o nosso show para a Ásia toda, representar o Brasil e a nossa música. Acho que muitas coisas boas devem acontecer este ano por lá.

06. Como você usa ferramentas como Mypsace e mídias sociais para divulgar o seu trabalho? Elas realmente fazem a diferença?

As mídias sociais, como o MySpace, já são ferramentas básicas para o artista de hoje. Eu quero ficar perto dos meus ouvintes, e as pessoas também querem ficar cada vez mais próximas dos artistas. Ninguém quer mais aquele artista enlatado que só se via na televisão. As pessoas querem mais interatividade, querem participar da carreira, querem fazer parte. E de fato, fazem parte. A conexão que existe entre o público e artista hoje é muito mais próxima do que era há 15 anos. Graças à internet esse contato ficou direto, e eu quero ficar por dentro de tudo isso.

07. Para fechar, que música você sugere como primeiro passo para quem quer conhecer o seu trabalho? Por quê?

Pergunta difícil para mim… Acho que os sambas “Slip Into Precision” e “The Question Song”. A primeira porque ela abre o disco com uma mensagem: “As coisas boas e as coisas ruins da vida são passageiras; viva seus sonhos hoje e acredite no amanhã”. A segunda porque ela aponta o dedo pra você e te diz: “Se você fugir dos seus sonhos hoje, amanhã eles voltam para te pegar”. Não adianta ter medo e fugir, seus sonhos são o que você é.

WE SHINE INSIDE THE LIGHT

De vez em quando me vem em mente uma noite de Natal com a família na mesa, uma garrafa de vinho vazia e a outra pela metade, todo mundo papeando naquele clima de final de festa em que os assuntos mudam numa piscada. Eu não me lembro do contexto da conversa em que meu tio comentou que “os CDs hoje em dia só tem duas músicas boas e o resto não presta”. Isso no final da década de noventa. Nossos gostos musicais eram bem diferentes e, consequentemente, a qualidade do que ouvíamos, mas não pude deixar de dar certa razão. Alguns artistas pareciam preparar duas ou três músicas para tocar na rádio e encher o CD com o que sobrou do tempo de aluguel do estúdio. Se você olhar para a sua coleção na estante certamente vai achar um par de exemplos assim. Isso se ainda não tiver transformado as boas em mp3 e vendido os CDs no sebo.

Hoje com o mercado de músicas digitais, a situação tinha tudo para caminhar nessa direção que não sei se é a melhor escolha, então fico feliz de perceber que, pelo contrário, o pessoal tem se esforçado para entregar um cd redondo aos fãs, com várias músicas com potencial para tocar na rádio, mas sem cair na pasteurização.

Esse é o caso de A Kind of Bossa, do Rodrigo del Arc, mais um nome da nova geração da música brasileira que conheci através da minha irmã. O Rodrigo flerta com a sonoridade brasileira da bossa e do samba, acrescentando seu flavor pessoal às composições. Pensei em usar aqui o clichê do “olhar para o passado tendo um pé no futuro”, mas parando para pensar, ninguém diz que o rock está velho, que o rap está velho, que o pop está velho, então não quero prender a bossa nessa amarra temporal, ainda mais resenhando um CD que aposta na contemporaneidade.

Slip to precision é um sambinha de percussão bem trabalhada que poderia estar em um cd da Roberta Sá. Gosto porque foi feita para seguir num crescente até o clímax e é uma boa apresentação do CD. Estou curioso para ouvi-la ao vivo. Sometimes me lembra muito dos áureos tempos do George Michael, uma das minhas prediletas. Se em Slip to precision Rodrigo del Arc usa o fraseado sílaba a sílaba para destacar o ritmo, em Sometimes as palavras são pronunciadas mais lentamente, permitindo que ele explore ao máximo a sua voz, casando direitinho com a melancolia da letra. Essa melancolia também vale uma escutada em Under the sea, a mais atmosférica do cd. A letra traz uma alegoria de despedidas e solidão muito bem sacada, com direito a um “whatever” no final no maior clima de “apesar disso tudo, dane-se”. Ironia poética. “Some time ago we used to say, and you said it will last forever, But forever had an end” The question song ganhou videoclipe, toca na rádio e você consegue em download gratuito no myspace do cantor. É letra de fim de relacionamento, cheia de perguntas jogadas ao ar. “Why did you fake, why did you take that from me and then brake all the rules?” Apesar de ser a canção de trabalho, gosto só do final estilo Jorge Ben. Prefiro a levada de Trip, que me remete a surf music, um clima de praia, de viajar por aí caindo na estrada que me deixa saudosista. “Posh Motels, fancy cars / A blue bird stroke in my guitar / While everyone keeps knocking on my door.” Pena que acabe tão rápido. Para fechar, uma que não poderia faltar nessa lista resumida é A place to remind, um dos grandes acertos do CD. Tem um quê de ritmos nordestinos (não, o resenhista não está louco. Escuta lá com atenção) e um instrumental que vale ouvir uma segunda, terceira, quarta vez.

Intimista sem ser reducionista.

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