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Com vocês… The Zombie Presidents.

La Dama Russa começou sua carreira importando vodka para zumbis. Quando conheceu Quizumba, se converteu à política e ao uso de rímel. Foi militante e combateu o exército na primeira tentativa de extermínio de zumbis do país. Como o cachê da Milla Jovovich era muito caro na época, contrataram mercenários para comandá-lo. La Dama Russa sofre ataques constantes do Zumbi da Motosserra, louco para cortar sua língua fora. Felizmente, seus olhos balançantes a ajudam a desviar dos ataques. Bem, de quase todos.

Missão: Nem ela sabe, mas seguirá até o fim.

Ponto fraco: Não há nada a Temer, além do presidente da câmara de gás.

Como capturá-la: Ataques aéreos. Na falta de tucanos, mande os corvos e urubus.


Quizumba é um ídolo entre os zumbis. Amigos e inimigos, todos sabem que Quizumba gosta mesmo é de um cafuné no cangote e uma massagem no ego. Com suas habilidades de felino, ele dança quadrilha e se equilibra em cima do muro como ninguém. Os demais zumbis tentam derrubá-lo, mas Quizumba parece invulnerável. Doutor Sinistro já tentou atraí-lo colocando cachaça no pires, mas nem assim ele desceu.

Missão: Levar La Dama Russa ao poder e zumbificar o Irã.

Ponto fraco: Desconhecido.

Como capturá-lo: Ofereça um cargo na zONU.


Especula-se que o Zumbi da Motosserra não seja desse mundo. Cientistas dizem que ele veio para a Terra em um meteoro do Partido Surreal da Democracia Baderneira que caiu nos desertos zumbificados de Brasília. Especialistas políticos acham que ele caiu foi de paraquedas mesmo. Com seu olhar sedutor, Motosserra seduz suas vítimas antes da mordida fatal. Os mais sortudos também ganham um beijo no porquinho.

Missão: Acabar com todos os fumantes do país, para que possa consumir sozinho toda a produção de tabaco e assim nutrir o pequeno alien incubado em sua cabeça-oca.

Ponto fraco: Diz a lenda indígena que ao ouvir por mais de uma hora um discursos do FHC, o Zumbi da Motosserra perde seus superpoderes.

Como capturá-lo: Recomenda-se iscas de pão de queijo.


Dead-Marine é uma zumbi intelectual, com os olhos adaptados para a vida nas profundezas das águas. Filiada ao PV, só come cérebros de políticos e preserva o dos bichinhos, o que lhe causa sérios problemas de digestão. Como a cabeça original não deu certo nas últimas eleições, Dead-Marine encontrou uma que combinasse melhor com a atual situação. Seu personal Stylist, porém, esqueceu que pontos em cruz não combinam com estampa florida.

Missão: provar que o Acre existe.

Ponto fraco: Acredita que todos os zumbis foram criados pelo Deus-zumbi, e que essa história de vírus é intriga da oposição.

Como capturá-la: jogue uma bandeira do movimento gay em cima. Dead-Marine ficará sem ação e você terá tempo de contra-atacar.

 

Senhor Sinistro: Ninguém sabe ao certo se é um zumbi ou um cientista maluco.  Pode ter trocado seu cérebro por partes mecânicas automatizadas., com entrada para pendrive no nariz. Seus poderes são testados em laboratório com selo do InMetro, mas o Senhor Sinistro nunca foi ao campo de batalha ver se realmente funcionam. Quando acuado, joga bombas para todos os lados e usa seu gás paralisante de intenção de votos.

Missão: transformar cérebros em pastinha de caviar e exportá-las para a Europa numa empresa familiar.

Ponto fraco: Fica hipnotizado quando vê a novela das oito.

Como capturá-lo: a exposição prolongada ao sol, à sombra ou a qualquer outra variação climática o deixam de cabeça quente. Todo mundo sabe que CPU que esquenta, reinicia. Aproveite o tempo do boot.


Imagens editadas no site Gross Out!

 

O Prédio, o Tédio e o Menino CegoUm romance existencialista bizarro. Definição perfeita. Esta lá no meio do texto, nem fui eu quem disse, foi ele, ou ela, assim, prontinho para ser usado na resenha, numa dessas de preguiçoso que mata o livro numa tacada só e fica livre para não falar nada com nada no restante do texto. Mas aí eu lembro que hoje em dia um autor não é só seu livro. Nada disso. A voz do autor está também no blog, esse famigerado veículo de opiniões. E lá no Jardim Bizarro, que um dia foi vermelho de Amor e Hemácias, o Santiago Nazarian disse que ninguém mete o dedo na sua orelha. É uma coisa que não me esqueço, não sei a razão, e já devo ter citado em outras resenhas daqui. E a orelha de O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é didática, pragmática como cabe ser a uma orelha. Lá no final diz que é o tipo de literatura que desperta zumbis, e eu ri. Eu ri porque achei que era uma brincadeira com o atual debate de limite de gêneros, mas o Tédio, o Menino Cego e o Prédio dão seu jeito de se desprender da realidade com maestria, espalhando zumbis metafóricos e metalingüísticos, mas nem por isso menos ávidos por neurônios, nem por isso menos animadinhos do que o Otto. Sim, tem zumbis. Mas nisso eu fugi da definição, do existencialismo bizarro, que era de onde queria partir e onde queria chegar.

Sabendo da história da orelha, olhei para aquela frase prontinha, embrulhada para presente, e pensei, hum, aí tem. Você pode argumentar sobre a minha total paranóia, que um autor não lança iscas no seu próprio oceano para pegar o crítico pela boca, de beiço espetado. Em minha defesa digo que O Menino Cego, o Tédio e o Prédio é um redemoinho de paranóia, feito para te arrastar para dentro, para o fundo, para que você tente nadar até a superfície e chegue a qualquer outro lugar. É um livro que desorienta. E num dos momentos mais explícitos de metalinguagem há um escritor, uma máquina de lavar roupa, os críticos e O Crítico, oras. E a piada é mais ou menos assim. Não, deixa a piada de lado, o que importa é O Crítico que fala mal dos críticos, que joga na cara o quanto eles falam besteira ao destrinchar teorias igual estou fazendo aqui. E eu nem li Almoço Nu, o Burroughs que me desculpe. Melhor me prevenir.

Mas há um modo didático que nem orelha intocada para se falar do livro, deixar explicadinho o que não quer ser explicado, quer é despistar, embaralhar as cartas do jogo para que não seja bem literatura do cotidiano nem literatura fantástica, que seja, de fato, existencialista, que tenha doses e overdoses de alucinógenos e humor negro, um gordo histérico e uma professora psicopata, num clima de pastiche policial. Isso servido em camadas, nos andares de O Cego, o Prédio e o Menino Tédio. Meninos, aliás, que são a nossa porta de entrada.

Os meninos.
São sete os meninos que acompanhamos na primeira unidade do livro. Há o Cego do título, o Gordo, o Atleta, o Negro, o Narciso, o Andrógino e o Junkie. Eles moram em um prédio inclinado, na beira da praia. São arquétipos propositais, reconhecíveis nos meandros da adolescência, na época de virada para a vida adulta quando a relação consigo mesmo é tão delicada quanto a relação com os colegas. Ser quem você é depende de sua própria opinião ou de como você se situa na hierarquia social do prédio, da rua, da escola? Há uma escala de poder, uma jornada de auto-aceitação descrita com doses de estranhamento. O Nazarian dedica parte do texto à face interna desses meninos, isola-os do todo, raramente estão juntos os sete, ele os trabalha em duplas, trios, vendo no grupo de amigos os subgrupos que se formam momentaneamente, por conveniência. É um dos pontos mais interessante dos meninos, dos sete e também dos personagens periféricos, a incerteza sobre suas amizades, a certeza de uma solidão que não se rompe nos pequenos diálogos ou na busca por afinidades. Dessa parte, entretanto, gosto bastante de um capítulo em que os sete estão reunidos, sobem uma ladeira indo rumo a um objetivo que não existe. No caminho eles pensam em seus porquês, pensam que poderiam estar lá ou em qualquer outro lugar, pensam no momento certo de sair de cena antes que não possam controlar o que se pensa deles. Mas, acima de tudo, é um capítulo simbólico do livro, é um capítulo que não se importa com o ponto de partida nem com o ponto de chegada, e diz que o que vale é o percurso, o processo, e vejo O Prédio, o Tédio e o Menino Cego como um livro que curte seu processo, que declara com a metalinguagem que a escrita é o melhor da história. O próprio autor compete de igual para igual com os personagens, avisa nas entrelinhas que ele também se metamorfoseia, se não da adolescência para a vida adulta, em outros casulos e crisálidas, em uma narradora capaz de migrar pelas páginas do livro de modo voyeurístico até a participação derradeira.

Não sei se essa parte fez bem ao meu niilismo. Talvez tenha feito bem demais, por isso a torcida para a chegada da Professora, a outra personagem-chave, a que mata menininhos. Se ficar pensando muito sobre o assunto, a resenha só termina ano que vem. Então vamos a ela:

A professora.
Um dos motivos do Tédio é uma greve de professores. As aulas são representadas pela sua ausência. Sem as aulas, não há tempo livre, pois o dia inteiro se torna uniforme, homogêneo em sua falta de função. Os professores entram no livro como um componente fantástico, um sopro de terror. Chegam para uma assembléia que supostamente decidirá o futuro da greve, mas chegam em vários ônibus de turismo, uma revoada, migratórios, loucos para aproveitar a praia que há em frente ao Prédio inclinado. São uma massa, um coletivo que planta a semente para a futura chegada de Regina, a professora que nos interessa.

E Regina chega pelo oceano, quando o mar congela, surgindo de um lugar que ninguém sabe bem. Ela deixa os meninos curiosos com a novidade, tudo que é diferente, que é mudança, é uma arma contra o Tédio. Mas Regina é mais do que isso, ela traz em si muitos papéis para sacudir a história e os hormônios. Regina marca a entrada em outro universo, em que os meninos deixam de ser meninos e passam a tentar impressionar a nova moradora. Não é que Regina seja do tipo agradável, pelo contrário, parece medir as palavras para ser incômoda, e faz isso com uma naturalidade paradoxal própria dos seres irritantes. Mas Regina é inacessível, é a grama mais verde. Num primeiro instante todos querem estar com ela, ser como ela. Adiante, as opiniões vão divergindo, os meninos conquistam uma individualidade além dos rótulos. Uma das grandes sacadas de Regina (e do autor) é exatamente sumir com os rótulos. Quando o Gordo deixa de ser o Gordo, o Andrógino deixa de ser o Andrógino, …, e o autor apresenta seus nomes não só para o leitor mas para os próprios personagens, eles precisam encontrar novos papéis na hierarquia, na história, o que desestrutura a relação e os joga para outras faces de seus arquétipos, onde o Junkie é ainda mais junkie e menos iluminado, o Gordo que apanha vira o gordo que bate, o Narciso não é mais o centro das atenções e encara suas inseguranças.

Regina é também a professora e eleva à enésima potência a máxima de que sobreviver ao colégio é para poucos. Não porque seja exigente dentro da sala de aula, mas porque é uma louca psicopata que mata criancinhas. Uma mistura de Bruxa Má e Branca de Neve no meio dos seus sete anões. Os momentos em que o Nazarian enfia o pé na jaca com gosto e explora as sandices da personagem dão um fôlego extra para o final da história, pelo menos para os que curtem humor negro. É uma delícia. Passei o livro inteiro esperando por ela, e confesso que foi com ela que me diverti, mesmo tendo pena dos meninos, já que também não sou assim sem coração só porque escrevo resenhas.

Fazendo um apanhado de clássicos do policial e do terror, Regina desfila um cabedal de técnicas de assassinato, sumindo com cada um dos meninos de um jeito diefrente. Há o machado que destrói a porta repentinamente, auto-referências reptilianas e um chá envenenado que é meu assassinato predileto. Com uma professora assim, diretora carrancuda parece brincadeira de criança.

Os zumbis.
Para fechar, vale falar do estranhamento. Tenho ficado de olho no modo como os autores se aproximam ou se descolam da realidade, e o Prédio, o Tédio e o Menino Cego é cheio de artifícios. O mais direto deles é o prédio inclinado, sempre a um passo de desabar. Está lá para deixar tudo fora do lugar, para tirar do eixo. O elevador não funciona, as pessoas se desequilibram, o Negro é ejetado, o Gordo rola pelo chão. Nazarian brinca também com as mudanças climáticas. Há um sol de rachar que lota as praias, o mar congela na chegada do inverno, vira uma imensa pista de gelo. É por ele que vem Regina. Quando o calor volta, um imenso deserto, o mar desaparece, insetos tomam conta.

Alguns são elementos de ambientação, outros interferem diretamente nos ânimos e na trama. E aí chegam os zumbis.
O Prédio, o Tédio e o Menino Cego é Coraline with lasers. Ou Coraline ouvindo Suede de franjinha. Não por acaso o único sobrevivente desse massacre chamado adolescência é…

O Prédio, o Tédio e o Menino Cego
Santiago Nazarian
Ed. Record
343 páginas
Com ilustrações muito bem sacadas de Alexandre Matos. Gostei especialmente do pingüim.

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