Dois tradicionais sucessos de bilheteria da ficção-científica voltaram esse ano com nova roupagem. Star Trek zerou a série com uma superprodução que supera qualquer filme anterior. Exterminador do Futuro – a Salvação avança para a época em que a guerra homem x máquina já começou e John Connor não é só uma promessa de esperança. Um deles foi certeiro e ganhou elogios de crítica e de fãs exigentes, o outro foi um fracasso de crítica, mas está agradando ao público mais adolescente.
Se você está chegando agora ao universo de Exterminador do Futuro (Terminator), a premissa é mais ou menos essa: uma empresa privada começa a desenvolver um sistema de defesa global controlado por inteligência artificial. Mais tarde, a força aérea americana compra o projeto e continua o seu desenvolvimento. Esse sistema, chamado Skynet, tem acesso a todos os computadores militares do país, incluindo os que controlam armas nucleares. O que ninguém esperava é que a Skynet fosse realmente inteligente e começasse a operar sozinha. Os desenvolvedores do sistema não sabem o que fazer e, por medidas de segurança, tentam desligá-lo. A partir desse momento, a Skynet define a humanidade como seu inimigo e dispara as armas nucleares em seu controle. Se os Estados Unidos ficassem loucos e atirassem mísseis nucleares em países como Rússia ou Irã, o que eles fariam? Retribuiriam o ataque. E assim, antes que se esclareça que a ameaça é uma rede de inteligência artificial, metade da humanidade vai para o buraco. No futuro, Skynet evoluiu e já constrói seus próprios solados, os Exterminadores ou Terminators, para enfrentar as forças de resistência humanas. Lá pelas tantas, quando a viagem no tempo passa a ser controlada, a Skynet percebe que é uma ótima idéia mandar um Exterminador para o passado e matar o líder da resistência antes de seu nascimento (mirando sua mãe, obviamente). É isso o que move os três filmes estrelados por Arnold Schwarzenegger. O primeiro deles, lançado em 1984, é considerado um clássico da ficção-científica e o segundo também tem seus fãs.
Como o novo filme se passa no futuro, vemos a Skynet em todo o seu potencial, com grandes robôs e máquinas varrendo as cidades em busca de humanos. John Connor, o líder da resistência, luta ao lado do que sobrou do exército para tentar derrotar o super computador. Com potencial para uma boa história e um show de efeitos especiais, o filme acaba sendo uma coleção de erros. O primeiro deles a escolha do diretor. Se o primeiro filme contava com ninguém menos que James Cameron, A Salvação tem no comando McG. Quem? O diretor de As Panteras e As Panteras: Detonando.
A escolha dos roteiristas também explica bastante os resultados. A Salvação foi roteirizado por John Brancato, o mesmo que escreveu Terminator 3 (considerado o pior da série) e Mulher Gato, considerado um dos piores filmes da história do cinema.
Toda a força de Terminator reside na diferença filosófica entre homem e máquina, assunto explorado com maestria da série televisiva Sarah Connor Chronicles. Os responsáveis pela série enxergaram nos sentimentos e no valor dado à vida material inesgotável para os episódios. Nela, Skynet não quer simplesmente aniquilar os humanos. O grande sistema, com certa curiosidade mórbida, queria aprender sobre seus criadores. Além disso, os limites da capacidade de aprendizado acrescentavam novas camadas à história.
Os roteiristas de A Salvação não entenderam bem a idéia e transformaram o conceitual em simbólico. O símbolo? O coração. O homem tem coração, literalmente, a máquina não. Isso é explorado de forma quase didática através de um ciborgue, transplantes de coração, Terminators usando raio-x para ver coração e o que mais você imaginar. Para piorar, a Skynet é burra. Imagine uma Skynet com a cara da Helena Bonham Carter. Agora troque o conceito de Inteligência Artificial por Burrice Artificial. Pronto, é esse o novo inimigo da série. Sorte dela que John Connor e o Governo também não parecem lá muito inteligentes. Se você chegar a ver Terminator – A Salvação, depois de conhecer o plano do Skynet entenderá o que quero dizer.
A parte visual também tem sérios problemas. Apostaram em uma fotografia mais cinzenta, como se só isso já garantisse a atmosfera apocalíptica. As referências para os novos robôs foram descaradamente aproveitadas de filmes de ficção recentes. Há um parente próximo dos robôs de A Guerra dos Mundos e há uma coleção de Transformers para ninguém botar defeito. Juro que um dos Terminators usa uma faixa estilo Rambo na cabeça. Outra coisa irritante: para legitimar o filme, espalharam referências aos anteriores em tudo quanto é canto, mesmo que elas não façam o menor sentido. Tem o famoso “I’ll be back”, tem trilha sonora do Guns’n’Roses, tem Terminator sendo derretido, Terminator congelando, gravação de voz de Sarah Connor e por aí vai.
Para não ficar só nas negativas, duas atuações contam a favor. Sam Worthington no papel do ciborgue Marcus rouba todas as cenas em que aparece. Esperem por ele no filme Avatar, o retorno de James Cameron aos cinemas num projeto todo pensado em 3D. A atriz Moon Bloodgood aparece pouco com sua personagem Blair Williams, mas também dá mostras de que tem talento. Se o roteiro não se sustentasse tanto em cenas de ação, esses dois poderiam ter rendido muitos bons momentos.
Terminator Salvation custou US$200 milhões e rendeu mundialmente em 15 dias US$ 125.300.670 milhões. É importante que vá bem de bilheteria, pois é a primeira parte de uma trilogia.
Com Star Trek encontramos o outro extremo do capricho de uma produção, coisa de equipe dedicada em cada detalhe. Imagine a responsabilidade de zerar uma série cultuadíssima, explorada no cinema e na televisão à exaustão? A cobrança viria na mesma proporção que a ansiedade e os produtores sabiam disso.
Star Trek se passa num futuro distante, 2233, e acompanha a saga do capitão Kirk e de seus companheiros da nave USS Enterprise. A humanidade aqui não foi destruída por máquinas e a tecnologia conta a favor da evolução. Os aliados e inimigos são povos alienígenas, o que gera um universo riquíssimo que os trekkers sabem de cabeça e que os novos roteiristas souberam explorar de modo diferenciado (lembrando Star Wars em algumas partes).
A retomada da franquia ficou por conta de JJ Abrams. Apesar de não simpatizar muito com o trabalho dele, reconheço o toque de Midas e a genialidade por trás de seus projetos. Para quem não está ligando o nome à pessoa, ele é o criador das séries LOST, Felicity, Alias e Fringe. Para o cinema dirigiu Missão Impossível III (quase US$400 milhões de bilheteria). Mesmo quem nunca viu um único episódio sabe do sucesso de Lost e deve entender a força de JJ Abrams na indústria de entretenimento.
Não achei um dado concreto de orçamento, mas estima-se algo perto de US$160 milhões. Em um mês, fez de bilheteria mundial US$318 milhões, com grande força nos Estados Unidos.
A idéia de Abrams foi contar a história dos personagens ainda jovens, passando inclusive pela infância conturbada de Kirk e Spock. Abrams arrumou um jeito de permitir um novo desenrolar da série que respeitasse a essência do original sem ter que se prender aos inúmeros fatos e detalhes criados ao longo dos anos.
Abrams divide os méritos com os dois roteiristas de Missão Impossível III, Roberto Orci e Alex Kurtzman. No currículo, também trazem A Lenda de Zorro e Transformers, direcionados a públicos muito parecidos e estruturados em cima da mistura de aventura pseudo-rebelde e humor.
Em Star Trek, o pai de Kirk está em uma missão quando uma nave alienígena gigantesca começa a atacar. O único jeito de salvar a tripulação, incluindo sua esposa grávida, é se sacrificar num ataque Kamikaze. O jovem Kirk, traumatizado, cresce cheio de rebeldia, mas lá pelas tantas acaba entrando para a Academia da Frota Estelar. O roteiro acrescentou diversos elementos interessantes na relação entre os personagens. Spock, por exemplo, não é tão frio e lógico desde o início e acaba brigando diversas vezes com Kirk, que faz a linha herói apatetado, mostrando que o ambiente da Academia lembra muito o das universidades americanas (com o bônus de poder flertar com alienígenas). Uhura tem um affair por um dos tripulantes e desfila charme, enquanto Sulu luta muito bem esgrima e não fica preso à nave. Mesmo mostrando um visual arrebatador, Abrams aposta no relacionamento dos personagens como força motriz. Tiro certeiro.
O ponto fraco da trama fica por conta do vilão Nero. Apesar do nome sugestivo e da nave gigantesca que comanda, ele é fraco em sua essência, sem uma boa história por trás. Não ajuda muito o fato de ser interpretado por Eric Bana, que é esforçado mas não consegue arrancar aquele algo mais de seu personagem que poderia fazer toda a diferença. Fora ele, o elenco foi bem escolhido para sua proposta de atrair um público mais jovem. Zachary Quinto (Spock) já é conhecido por seu papel no seriado Heroes. Chris Pine segue o estilo bonitão e esse é seu primeiro papel interessante. Zoe Saldana deu vida a uma lindíssima Uhura, soube se destacar dentro das limitações da personagem e chamará ainda mais atenção na estréia de Avatar, de James Cameron. John Cho e Simon Pegg também devem conseguir um aumento de salário por suas participações como Sulu e Scott.
Abrams e sua dupla de diretores acertam onde Terminator – A Salvação erra completamente. Efeitos especiais são tentadores, mas uma boa trama ainda é fundamental.
O próximo Star Trek sai em 2011. Depois Abrams mergulha na adaptação da série A Torre Negra de Stephen King.
