Existe vida inteligente na Transilvânia após Crepúsculo? É só saber procurar.

A coletânea Território V (Editora Terracota) foi organizada pelo escritor Kizzy Ysatis, autor de Diário de Sibila Rubra e Clube dos Imortais, que ganhou o prêmio Rachel de Queiróz. Um autor de literatura fantástica premiado pela UBE – União Brasileira dos Escritores – pode espantar os que ainda julgam a relevância do texto pelo tema e não pelo talento do escritor. Como diz Javier Marías, é mais fácil ser respeitado pelo drama do que pelo humor. O fato é que as fronteiras entre gêneros estão sumindo, e aquela tendência natural da literatura brasileira de se alimentar do realismo, do pó de barro do nordeste e da miséria das cidades, está encontrando um ponto de equilíbrio com magos, zumbis e vampiros de sotaque brasileiro.

Território VDe acordo com a orelha, a proposta de Território V era justificar a solidão dos vampiros, brincar com a idéia de que um vampiro não se dá bem nem com ele mesmo (“alcatéia é para os lobos”), o que foi usado de maneira bem diversa pelos participantes. Geralmente em coletâneas você sempre se pergunta se alguns contos foram realmente lidos, de tão ruins. Não é o caso aqui. Os textos estão bem nivelados, sem nenhum ponto gritante fora da curva. Claro que há altos e baixos, isso acontece em coletâneas de um só autor o que dirá de vários. Mas mesmo quando a história não conseguiu me envolver ou descambou para o óbvio, o texto se mostrou bem estruturado, com um trabalho real de edição.

Ao todo são vinte contos, mais o prefácio de Giulia Moon. Resolvi falar de dez deles, os que mais me chamaram atenção e os que quase chegaram lá.

 

Antes do final, de Octavio Cariello, é fácil um dos meus preferidos. Captou o clima de diversão e reinvenção da proposta e, de quebra, se alimentou de uma atmosfera pós-apocalíptica que me lembrou Laranja Mecânica do Burgess. Uma distopia vampiresca, ó, meus irmãozinhos. Não tem um Alex espancando velhinhas, mas tem um cara que pisa em gatinhos e é, de certo modo, o mocinho da história. A premissa é simples: vampiros se alimentam de humanos. Em pouco tempo, há mais vampiros do que humanos. O alimento passa a ser escasso e humanos são criados como gado, levando a uma guerra por sangue. O ponto central são os vampiros, mas há breves momentos que falam da apatia humana, aquele ar bovino do ser encarcerado. Texto bem escrito, do que tipo que se lê de uma vez só. Merecia ter o dobro do tamanho. O Cariello também é o responsável pela capa.

“Eu falei pros caras que os humanos tavam precisando de sol e ar fresco, mas ninguém levou a sério. Como é que um bando de vampiros poderia arranjar banho de sol praqueles prisioneiros?”

Torniquete, de Douglas MCT, tem como atrativo a fluência da fantasia. Um algo mais que não vem das palavras, mas do jeito que a história é contada. Tinha lido antes de ser selecionado e desde então curtido a proposta. O Douglas não se prende a nenhum estereótipo de vampiro e também não faz um esforço descomunal para confrontá-lo, o que é bom. A história se passa em um orfanato, e o protagonista é um menino albino que sempre ouve um barulho estranho de noite e um dia resolve investigá-lo, dando de cara com uma situação inusitada entre uma menininha vampiresca e o padre que dirige o orfanato. Não, não é abuso e pedofilia. Só senti falta de um pouco mais de mistério sobre o padre, que ficou explicado demais. Mas é, sem dúvida, um trio interessante de personagens. Fica a sugestão para o autor apostar mais em histórias curtas nesse estilo.

“Como podia vê-la tão bem no escuro? A pele dela, tão branca quanto a sua, refletia a luz. Ele se espantou com aquilo. A curiosa pessoinha do pátio era extremamente parecida consigo. Então se reconfortou brevemente”.

O Amor é uma Necrópsia, de Fábio Fabrício Fabretti, é um texto biliar, especialidade do autor. É do tipo que revira o estômago e joga qualquer aura de charme vampiresco no valão. É fácil aqui identificar um estilo, um trabalho mais cuidadoso com as frases para que elas funcionem sozinhas, destacadas. Não é um texto de terror, porque não tem compromisso com o medo, mas tem a atmosfera pesada do gênero. O vampiro protagonista mora em uma gaveta do necrotério e, quando está sozinho, desenvolve uma relação de amor necrofágico com os cadáveres, um sentimento sublime que deixaria a Stephenie Meyer sem comer durante uma semana. Me lembrei dos meus tempos de farmacêutico, não pela necrofagia, mas pelo cheiro de formaldeído no ar. A única ressalva fica por conta dos antepostos adjetivos que o Fábio gosta de usar e que me incomodam durante a leitura.

“A princípio pouco sabia deles, conservados com uma substância rotulada de formaldeído líquido, um poderoso carcinogênico letal aos vivos, mas balsâmico aos mortos. Cada corpo trazia em si uma história velada. (…) Bocas em forma de fendas mudas”.

Cajita de Cigarrillos, de Kizzy Ysatis, é outro bom momento. Nunca tinha lido nada do autor e a curiosidade sempre eleva a expectativa. Ele tem um texto que flui naturalmente, que encontra ritmo na sonoridade das palavras de um jeito inconsciente. Se pensarmos no tema do livro, esse é o conto mais diferentão. É um conto metafísico no modo de expor sentimentos e o efeito das escolhas do autor e dos personagens. Como foi o Kizzy que pensou na proposta do “ser solitário” para a coletânea, natural que a cumprisse ao pé da letra. O conto se alimenta de uma relação de desejo e desprezo entre dois garotos, moleques, um o fodão da turma, o outro um gordinho louco para fazer parte dela. Numa festa, depois de um briga, sentam em roda para contar histórias de terror, os dois no centro em uma disputa, e o que acontece leva a uma situação sangrenta de doação, a resolução física da metafísica. Ponto forte: saber que o leitor é capaz de completar lacunas e trabalhar com isso.

“Eu sou o Victor e sou um saco de pancadas. (…) Queria estar lá brincando com a turma. Sinto inveja. Queria ser como eles; queria ter eles pra mim. Me desprezam mas eu amo eles. Não me conhecem e nem querem me conhecer. Queria mostrar que posso fazer parte da turma”.

Irresistível, de Flávia Muniz, traz uma mistura delicada de lirismo e drama. É um texto que lida com a memória, com os fragmentos que sobrevivem na mente de um vampiro depois de séculos de existência. Explora a capacidade de palavras simples, pequenas agulhadas, despertarem um turbilhão de significados. A protagonista, mais que imagem, é pele, é cheiro. Como dito no próprio texto, ela é volúpia. E graças a manha de flexibilizar o dramático para incorporar o lírico, a Flávia construiu um conto extremamente sensorial, com uma vampira de sentimentos borbulhantes. A história fala que, depois de muito viver, ela encontrou e perdeu o amor. Um amor que vem do outro e também de si. Foi um dos poucos contos a me passar a sensação de atemporalidade. Impecável nesse aspecto.

“Também houvera calor do fogo das lareiras. Ah, que atrevidos! Taças borbulhantes, vinhos cor de sangue, peles nuas, águas perfumadas, bocas ardentes e incontáveis beijos apaixonados sob a lua de mil faces”.

As Vampiras de Kenshin, de Giulia Moon, é um conto divertidíssimo. Conheço a Giulia pessoalmente então cheguei a ouvir sua voz durante a leitura, um audioconto imaginado, o que fala muito da identidade de um autor. A protagonista é Negra Luiza, que de escrava virou uma agente vampiresca, dessas que trabalham em serviços sujos que os humanos não são capazes de lidar (sem ferrar com tudo). Sua missão é resgatar Kenshin, um astro de rock japonês que veio para o Brasil se apresentar no Morumbi e foi sequestrado, possivelmente por fãs histéricas. Mesmo no tempo curto do conto, Giulia consegue fazer a ambientação e apresentar detalhes de sua mitologia pop e underground. Ela lida com elementos contemporâneos como redes sociais e fãs que desmaiam diante dos ídolos (eu sei, desde Elvis e Beatles, mas você entendeu) e lutas para Tarantino nenhum botar defeito. A virada de trama no final vale o texto inteiro. Humor, seja bem-vindo.

“Continuando a minha busca, fui parar numa pequena comunidade do Orkut chamada As Vampiras de Kenshin. Notei que a palavra ‘marbrekots’ constava na descrição do grupo, um código que nós,
vampiros, usamos para nos identificarmos uns aos outros”.

Zugzwang, de Claudio Brites, é um conto que me surpreendeu, me pegou pelo pé. No início eu não dava nada pelo texto. Se soubesse o que significa o título antes de começá-lo, leria com outras expectativas. Mas não sabia. Então lá estavam vampiros jogando xadrez, envoltos em fumaça de cigarro. Enxerguei aí dois símbolos que são armadilhas, desgastados de todas as maneiras possíveis no cinema e na literatura. Mas logo em seguida, o Claudio começa a flertar com a suspensão do tempo, e nisso, o texto escapa de ter o xadrez como mera metáfora do confronto. Interessa mais a espera infinita por um movimento que o jogador não quer fazer. E nesse tempo elástico, na infinitude das decisões, surgem diversas brincadeirinhas com o ambiente literário, deliciosas pra quem é do meio. Na história, um dos vampiros, escritor, saca seu original para mostrar ao fumante. O escritor demorou anos para concluí-lo, o fumante, agora crítico, demorará anos para dar sua opinião. É uma tortura, um jogo de impasses, com direito a alfinetada na vaidade de quem cria. Um dos melhores finais do livro. De sugestão, lembrar que é preciso escolher uma um norte ao brincar com o lirismo das frases, um recorte imaginário que defina de onde virão as palavras.

“A sala vazia fica viva com um morto a menos. Mesmo permanecendo na sala o fumante mergulha no livro o pouco que existe de sua presença. (…) O cigarro volta a iluminar todo o ambiente. O som do livro caindo no colo do escritor o faz entender o despertar do fumante”.

Esplendor, de Juliano Sasseron, entra na lista por flertar com miséria e religião, com breve menção à Faixa de Gaza. O autor, mineiro, não deve saber, mas há uma região do Rio de Janeiro que recebeu esse apelido carinhoso também. O parágrafo introdutório é explicadinho demais ao apresentar o personagem. Depois, o texto evolui para a crítica social e ganha ao incorporar metáforas. Há o garoto temeroso pedindo dinheiro no sinal, a banheira cheia de ratos (quase um Cazuza) e um par de insetos espalhados. Há baratas que resistem a bombas biológicas, gafanhotos destruindo plantações e uma vespa zumbindo no ouvido como a voz da consciência, a que mais funcionou a meu ver. Políticos e religiosos vampiros? Parece ser esse o clima. Boa escolha de tema, só faltou burilar um pouco mais as palavras e lembrar que as metáforas ganham um sabor extra quando se brinca com as entrelinhas.

“Estas duas seitas sempre foram inimigas, guerreiam pelos motivos mais banais. Assim, os gafanhotos voltam a existir. Ninguém se lembraria deles se não fosse a guerra, pois, com tantos agrotóxicos no mercado, esse mal não conseguiria mais causar dano em uma lavoura”.

Anjo da Guarda, de Camilo Vannuchi, é um exemplo de texto direto, com boa fluência. O autor teve a idéia inusitada de levar os vampiros para um sertão romântico, terra de comadres, imerso naquela rotina do ninguém chega ninguém passa. O conto é narrado pela dona de um armazém. Sozinha, recebe toda noite a visita de um homem bonito, que a faz sentir especial de um modo que não entende direito, talvez por não conseguir decifrar seu objeto de platonismo. Um dia, seu pedaço de homem enfrenta um inimigo ali na sua frente, deixando-a aterrorizada. É um texto que vejo fácil adaptado para o teatro infantil (sem demérito nisso), tanto pelo cenário e figurino, quanto pelos personagens e gestual. O ponto positivo foi ser comedido, não colocar a mão onde, talvez, não alcançaria. Só ficou faltando um momento de “uau”, uma cena que marcasse com mais força o clímax.

“Não sou mulher de puxar prosa com cliente, você sabe. Aprendi que dar trela pra freguês é abrir caminho para falatório. Ainda mais neste fim de mundo, nesta vila avexada de uma rua só, encruada na margem esquerda do Velho Chico”.

A cor da lágrima, de Lizy Tequila, fecha a lista por ser um texto redondinho. A narrativa é simples, mas de frases bem trabalhadas. É um texto fácil de se ler, em que os parágrafos rendem na medida. A crítica é o tema da história: o vampiro arrependido. Além de não gostar de sua condição de vampiro, Thiago é um nômade solitário que passeia de velório em velório para esquecer sua própria dor existencial. Não bastasse isso, precisa lidar com o velho dilema de ver os entes queridos morrendo enquanto ele perdura. Lembra um pouco o problema de filmes gays em geral. Não basta ser gay, tem que sofrer preconceito, ter um amigo com AIDS, não ser aceito pela família, brigar com o melhor amigo e, se possível, lutar para adotar uma criança. Tudo em uma hora e meia. Se a Lizy tivesse mirado num drama só, o que é realmente relevante para o final da história, e tivesse aliviado a consciência do Thiago nos demais, o conto teria crescido em densidade psicológica. Ainda assim, é alguém que tenho curiosidade de ler mais textos no futuro.
“Ajoelhado, Thiago chorou angustiado. Um choro de desespero e súplica. A culpa o punia uma vez mais por ser o que era, e a culpa lhe era muito pesada. A aflição por ainda possuir parte da memória humana o impedia de ser como os outros, que caçavam (…)”.

Também participam Raphael Draccon, Cid Vale Ferreira, Luis Eduardo Matta, Marcelo Maluf, Isabella Lemgruber, Solone de Arruda, Isaac Moraes, Sidemar de Castro, Israel Teles e Chris Sevla.