Há livros que leio e filmes que vejo que não tenho vontade de resenhar. Alguns pelo pouco a se dizer, outros por um egoísmo que me toma de não quere dividir as impressões que a obra me deixou, como se ao resenhar e racionalizar parte do encanto pudesse se perder. Fiz isso com Labirinto do Fauno e pouco me lembro da história, mas preservo ainda um pacote complexo de sensações importante para analisar outros livros e filmes. Por mais apoio teórico que tenha um crítico, e aviso desde então que o considero fundamental, opiniões se formam com as marcas na retina, em algum ponto perdido das sinapses.
O escuro do cinema não serve apenas para engrandecer o filme (já que por maior que seja a tela ela perderia em plenitude para o conjunto da obra), ele oculta os elementos dispersivos e, principalmente, propicia o ambiente ideal para a transição. É ali, quando a luz se apaga, que começa o abandono do mundo externo, e o espectador passa a se despir de suas próprias histórias para absorver as de terceiros. Concordo que os eternos comerciais não ajudam muito. Funcionam quase como o tratamento de Alex em Laranja Mecânica, os olhos presos com grampos para que não possamos desviar da imagem. Mas passada a obrigação e com sorte uns bons trailers, cabe ao diretor e sua equipe dar os primeiros passos a caminho do total desligamento. A abertura não é só o momento de mostrar os patrocinadores e o nome dos atores. Há ali pequenos truques de som e imagem, uma tela preta ou colorida, a transformação do logotipo da empresa, que anunciam ao espectador a entrada na nova realidade.
Pergunto-me ali na escuridão o papel dos bastonetes. São eles que funcionam no escuro. Que ajudam o atrasado a chegar ao seu lugar quando o filme já começou. Precisam de muito pouca luz para captar a imagem. Mas essa vantagem felina os aprisiona em mundo sem cor. Os bastonetes vêem tudo cinza, repleto de tonalidades, é verdade, mas nos trazem informações desprovidas do colorido e por isso obrigam o cérebro a decodificar as emoções de outras maneiras, através de outros códigos, pois não tenho como pensar que uma maçã assim seria sem o seu vermelho. Essa profusão de cores que tanto simboliza é responsabilidade dos cones, células totalmente dependentes da luz para possibilitar o aproveitamento e posterior interpretação do que nos marca a retina, estando o entendimento perdido em algum ponto entre o instinto e a razão.
Valsa com Bashir começa com cães raivosos e cinzentos de várias espécies correndo pela rua. Eles vêm cegos de ódio, sem um alvo definido, como se o próprio ódio lhes bastasse. Os dentes, obviamente, estão arreganhados. Há o som, os ruídos, a integração dos sentidos para alertar que a segurança da cidade será revolvida pela matilha. Os cães passam por diversas pessoas sem nome. Ainda não há um chão para o espectador, apenas latidos e há necessidade de decidir em que se agarrar, para quem torcer, saber do que fugir. Toda vez que cruzam os bares ou pedestres, nasce a espera do ataque. O perigo é iminente mesmo quando o inimigo não está visível seja aos olhos ou à lógica. É evidente que não é seguro, aqueles cães tudo podem, as vítimas não teriam como se defender. Algumas correm para dentro dos bares e casas e sem as pessoas os cães derrubam mesas e cadeiras. Não vêem nada à sua frente. Fica a vontade de gritar, de saber afinal qual é o destino da matilha, pois ao conhecer o alvo saberíamos que o resto é caminho. Mas um homem cai, um cão pára, existe a tensão. Sem o ataque, é fato, mas com a clareza da possibilidade, de que a qualquer momento, sem qualquer razão aparente, os cães podem parar de ladrar e de fato morder, que a qualquer momento as ameaças de uma guerra podem se tornar reais e esse é um antes e um depois muito distantes entre si, que não se separa por segundos, mas pela evidência da morte. E nessa corrida rápida que mescla um tanto de percepções e esvaziamentos, mais e mais cachorros se unem a matilha até chegarem a um total de vinte e seis, pararem na portaria de um prédio e começarem a latir. Enfim, um homem, lá no alto, aparece na janela, olha rapidamente para os cães e some. É o primeiro personagem a estar de fato protegido, olhando-os de cima para baixo, com o distanciamento amenizando o fato de ser o alvo, ele e mais ninguém.
É um sonho que tem todas as noites. Os cães vêm, correm, derrubam e param embaixo de sua janela. Vinte anos depois da guerra e da profusão de imagens captadas por cones e bastonetes o cérebro deu seu jeitinho de dizer que aquelas lembranças continuariam lá e que não se pode simplesmente enterrar eventos da dimensão de uma guerra como se não tivesse ocorrido.
Mas não é ele o personagem principal, é apenas o estopim, o começo de tudo. É ele que chama um amigo no meio da noite para conversar sobre o pesadelo. E esse amigo, que também é personagem, diretor e ator, se dá conta de que não se lembra de quase nada de sua participação na guerra. Lembra-se dos momentos de folga, mas o perigo em si, ele apagou. Ficou apenas uma memória, uma cena-chave, lindíssima, que amplia o encanto do filme. O protagonista está nu com três amigos na praia, é noite. Sinalizadores amarelos iluminam o céu da cidade destruída. Se há sinalizadores, há soldados, haverá invasão e morte. Eles vestem suas roupas na areia. O protagonista entra na cidade e dezenas de mulheres vestidas de preto correm em sua direção. É difícil não sofrer o impacto da imagem, a quebra do negro e dourado da noite, contrastando com o branco pálido do dia, é difícil não captar o medo das mulheres correndo quase sem movimento graças a captação em Flash, suas expressões beirando o bidimensionalismo, mas profundas no sofrimento que trazem no peito, que no documentário-desenho é mudo, no documentário-verdade, ensurdecedor. E o mais mágico de tudo, se é que há algo de mágico na guerra, é que essa lembrança bela como uma pintura e que move todo o filme é falsa, uma memória construída.
Valsa com Bashir é um documentário israelense sobre a participação do país contra o Líbano, que lá pelas tantas culminou com o massacre vergonhoso de palestinos refugiados, lembrando deveras as práticas nazistas. Seu ator, protagonista e diretor, Ari Folman, ao perceber que não se lembrava do que havia vivido no período, começou a entrevistar conhecidos que também participaram da guerra, além de um médico ou dois. Levou anos para captar o dinheiro, captou pouco, mas suficiente para ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro, ganhar o Globo de Ouro, 6 Ophirs em Israel, e conquistar mais um par de prêmios no percurso. A beleza de Valsa com Bashir está na desconstrução da história através da reconstrução da memória. A fragmentação da farsa pela recuperação do fato. A farsa, não necessariamente histórica, mas a que criou para si mesmo. Faz isso com uma linguagem lenta e agoniante que protege nos jogos de cores, terminando explícita, nua e crua, quando o quebra-cabeça se completa.
A racionalização do quebra-cabeça e os meandros da trama, se me permitem, eu vou pular. Mas o Google está aí cheio de detalhes para quem quiser saber. Pessoalmente, aconselho uma ida ao cinema.

Saudades da tua companhia nas salas de cinema da vida.
Beijo sempre.
Excelente texto, Eric, seja pela resenha em si ou pela lembrança destes pequenos momentos egoistas que nos invade quando menos esperamos e que nos toma, assim, de assalto e nos faz prisioneiros de nossos próprios sentidos.
Me lembrou tbm de que preciso ficar mais tempo no escuro, observando ausências de cores.
Abraços