É a natureza humana. Ninguém gosta de ver o outro muito tempo por cima e esse outro às vezes é um artista do porte de Woody Allen. Muitos teóricos já haviam aberto a cova, jogado o corpo e o primeiro punhado de terra (ou o décimo primeiro). E então veio Match Point, indiscutível obra de mestre repleta dos fantasmas/musas preferidos de Allen, vindos dos textos de Shakespeare e Dostoievsky, com direito a influência direta de Crime e Castigo, tanto na cópia do crime quanto na subversão de seu final. Em seguida, porém, veio Scoop, uma comédia de roteiro ralo com Allen atuando ao lado de Hugh Jackman. Apesar da estrutura interna bem construída, no geral não convencia. Natural então que houvesse expectativa em relação ao projeto seguinte – O Sonho de Cassandra. Egos e âmagos precisavam com urgência sanar a dúvida que norteia tantas conversas sobre cinema: gênio ou diretor ultrapassado? Abro ou fecho a cova? Mas gastei tanto dinheiro comprando a pá!

Como era de se esperar, Allen tomou a decisão mais sábia e O Sonho de Cassandra não pende nem para um lado nem para o outro. O filme não é uma comédia, apesar de lidar diretamente com a estupidez humana, nem chega a ser um suspense, apesar da crescente tensão. Seria essencialmente um drama se não fosse Allen o maior representante do espírito fatídico de Sófocles e Eurípides, o que faz de O Sonho de Cassandra uma boa tragédia grega.

A história é simples. Dois irmãos vivem uma vida apenas razoável sem muita grana. Terry (Colin Farrell) trabalha em uma oficina e é viciado em apostas. Seja corrida ou carteado, o que importa é a adrenalina e a sensação de virar o jogo no final quando os bolsos já estavam vazios. Ian (Ewan McGregor) é mais centrado. Trabalha no restaurante do pai ajudando-o, apesar de ser louco para sair de lá e tomar novos rumos mais interessantes. É o tipo de pessoa que olha sempre adiante, em busca da chance que mudará sua vida. Um dia, Terry resolve apostar alto e passa a dever muito dinheiro e fica com agiotas no seu pé. Já Ian conhece a mulher de sua vida e decide bancar o empresário de sucesso para conquistá-la. O que ambos têm em comum? Eles precisam de muito dinheiro para consertar seus problemas e recorrem a um tio (Tom Wilkinson) bem-sucedido e milionário. Quando contam seus problemas, o tio promete ajudá-los e aproveita para pedir um favor. Precisa eliminar um funcionário disposto a denunciar fraudes de sua empresa, caso contrário irá preso.

A partir daí, a redenção dos irmãos passa a ter um preço: a morte de outra pessoa.

Em princípio os dois reagem da mesma maneira. O tio quer demais e ele não vão ultrapassar certos limites. Com o desenrolar, as nuances de personalidade que Allen cultiva na primeira parte do filme começam a nortear rumos diferentes para cada um. Terry, lembrando, extrai nas bancas de aposta o que não consegue e nem quer na vida real: emoção. Para Ian, o mundo é o tabuleiro. Outro detalhe. Se Ian conseguir o dinheiro, ganha a mulher e o emprego que sonhou para si. Se Terry conseguir o dinheiro, escapa de uma provável morte, já que agiotas não brincam em serviço. Desse ponto de vista, parece que Terry tem mais a perder se decidir não matar a testemunha, mas ao mesmo tempo a sua situação o faz encarar a possibilidade da morte, deixando-o como uma dimensão mais precisa da vida.

Parando por aqui para não estragar o final mais do que Allen já estraga, vale dizer que, ao contrário do que acontece em Match Point, a cereja do bolo de O Sonho de Cassandra não é a direção de Woody Allen (que costuma dizer que simplesmente sai da frente dos atores e deixa que façam o que sabem), mas a atuação digna de Colin Farrell e Ewan McGregor. Retirados de seu habitat natural, os dois sobrevivem com proeza e lembram que ainda têm bastante para oferecer ao mundo do cinema. Já Woody Allen…